A cigarrinha-verde, uma praga nas vinhas do Sul de Portugal: métodos de diagnóstico e ferramentas de monitorização

BACKGROUND

A perda de biodiversidade e a ocorrência de pragas e doenças estão intimamente ligadas, tendo efeitos importantes no estado fitossanitário e produtividade das plantas. Neste particular, os danos causados pela cigarrinha-verde (Jacobiasca lybica e Empoasca spp.) tornaram-se motivo de preocupação nas vinhas mediterrânicas (del-Campo-Sanchez, A. et al., 2019) e, em particular, na região do Alentejo. Uma abordagem que tem sido utilizada para manipular a biodiversidade agrícola é a denominada interplantação (“intercropping”), que consiste na combinação intercalada de duas ou mais culturas na mesma parcela. Embora esta abordagem tenha já começado a ser aplicada em diferentes sistemas de produção, a compreensão dos seus efeitos é ainda deficiente. Nas vinhas, é conhecido o efeito alelopático, ou seja, o efeito prejudicial ou benéfico entre plantas por meio de substâncias químicas de algumas culturas utilizadas neste modo de produção (Wang, Z. et al., 2015), bem como os efeitos potenciadores na fauna auxiliar (Irvin, N. et al., 2018; Gowton, M. G. et al., 2021) (polinizadores e inimigos naturais).

SINOPSE

Inquéritos realizados a cinco grandes produtores de vinho que gerem 22 propriedades em todo o Alentejo revelaram que a cigarrinha é uma praga emergente de grande preocupação, que afeta o rendimento e a qualidade da produção de vinho. Destes cinco grandes produtores de vinho entrevistados, todos indicaram a cigarrinha como tendo um impacto moderado a elevado na sua produção. No entanto, estes produtores indicaram também que as soluções para o controlo desta praga são muito limitadas e de eficácia inconsistente entre os anos, principalmente em modo de produção biológico.

No seguimento desta situação regional, o InnovPlantProtect (InPP) iniciou em 2021 um ensaio experimental nas vinhas da João Portugal Ramos Vinhos (JPR), em Estremoz, permitindo extrair informação sobre os padrões demográficos, danos e sintomatologia foliar desta praga. No ano de 2022, será dada continuidade a este ensaio experimental, introduzindo a interplantação como uma nova abordagem ao controlo de pragas.

OBJETIVOS

O programa de monitorização para 2022 decorrerá em duas frentes. A primeira visa dar continuidade à amostragem das estações de monitorização de cigarrinha-verde, iniciada em 2021 nas propriedades da JPR. A segunda será exclusivamente dedicada à avaliação dos efeitos da interplantação na vinha e dos efeitos das infestações de cigarrinha-verde na produção vitivinícola, envolvendo oito plots experimentais, seis na região do Alentejo (João Portugal Ramos Vinhos) e dois na Península de Setúbal (em propriedades dos associados da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela), entre maio e setembro. Os trabalhos decorrerão em vinhas irrigadas geridas em modo convencional, com castas mais sensíveis às cigarrinhas, utilizando duas combinações de plantas aromáticas para a interplantação. Os objetivos principais são:

(1) avaliar as potencialidades da interplantação como forma de controlo natural das populações de cigarrinha-verde, influenciando a dinâmica da praga, predadores e parasitoides;

(2) determinar os efeitos das infestações de cigarrinha-verde na produtividade da vinha e na qualidade das uvas/ vinhos.

O cumprimento destes objetivos permitirá uma gestão mais eficiente e sustentável da vinha, nomeadamente ao nível do uso de produtos agroquímicos.  

ATIVIDADES

1. Instalação das plantas aromáticas e seguimento meteorológico semanal (princípios de abril de 2022).

2. Monitorização das infestações de cigarrinha-verde com armadilhas e contagens semanais do número de videiras afetadas pelas infestações (a iniciar em meados de maio).

3. Monitorização da entomofauna (conjunto de insetos de uma região) auxiliar com armadilhas cromotrópicas (placas adesivas amarelas que atrem os insetos pela cor) e um dispositivo de vácuo (iniciada em março).

Esta atividade iniciou-se já no mês de março de 2022 em Estremoz e Pegões, com a instalação de armadilhas cromotrópicas nos plots experimentais, com vista ao estabelecimento da situação de referência da entomofauna auxiliar (predadores e parasitoides).

4. Avaliação do efeito da interplantação e das infestações de cigarrinha-verde na produtividade e qualidade das uvas (a iniciar entre junho e setembro).

5. Testes dos Espectro-radiómetro e FluorPen para a deteção das infestações de cigarrinha-verde.

Em 2022 os trabalhos em curso para a cigarrinha-verde vão permitir secundariamente uma primeira abordagem a outras pragas da vinha, nomeadamente a traça-da-uva (Lobesia botrana) estando previstas contagens regulares de machos e quantificação de estragos.

ORGANIZAÇÕES ENVOLVIDAS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

del-Campo-Sanchez, A., Ballesteros, R., Hernandez-Lopez, D., Ortega, J. F., Moreno, M. A., & Agroforestry and Cartography Precision Research Group. (2019). Quantifying the effect of Jacobiasca lybica pest on vineyards with UAVs by combining geometric and computer vision techniques. PLoS One, 14(4), e0215521. 10.1371/journal.pone.0215521

Gowton, M. G., Cabra-Arias, C. & Carrillo, J. (2021). Intercropping with peppermint increases ground dwelling insect and pollinator abundance and decreases Drosophila suzukii in fruit. Frontiers in Sustainable Food Systems. 5. 10.3389/fsufs.2021.700842

Irvin, N.,  Hagler, J. R. & Hoddle, M. S. (2018). Measuring natural enemy dispersal from cover crops in a California vineyard. Biological Control. 126. 10.1016/j.biocontrol.2018.07.008 

Wang, Z., SU, J., LIU, W. & GUO, Y. (2015). Effects of intercropping vines with tobacco and root extracts of tobacco on grape phylloxera, Daktulosphaira vitifoliae Fitch. Journal of Integrative Agriculture. 14. 1367-1375. 10.1016/S2095-3119(14)60864-9

Equipa

Member
Position
Líder de projeto (InPP)
Colíder de projeto (InPP)
Investigador (InPP)
Investigador (InPP)
Francisco Pinto
Estudante (ESAE)