Notícias e Eventos

plant blanco

NOTÍCIAS

Árvores maiores, mais bolotas, mas também maior vulnerabilidade?

Um estudo do InnovPlantProtect revela uma relação complexa entre a dimensão das árvores, o seu estado sanitário e a produção de bolotas — com implicações para a monitorização e gestão dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos. 

À partida, uma árvore maior parece ser uma boa notícia. 

Uma árvore mais desenvolvida pode ter um papel importante na regeneração natural dos ecossistemas, através da produção de bolotas. Mas será que ser maior significa também uma maior capacidade para resistir ao declínio?

Os resultados de um novo estudo sugerem que a resposta não é assim tão simples. 

Investigadores do InnovPlantProtect e de outras instituições portuguesas e espanholas analisaram a saúde e a reprodução de carvalhos mediterrânicos, procurando compreender de que forma o tamanho das árvores e o seu estado sanitário se relacionam com a capacidade de produzir bolotas.

Nem todas as árvores estão igualmente expostas 

Os carvalhos mediterrânicos, como o sobreiro, a azinheira e o carvalho-negral, desempenham um papel importante nos ecossistemas de montado e dehesa da Península Ibérica. Estes sistemas enfrentam, contudo, diferentes pressões ambientais, que podem comprometer a saúde e a capacidade de regeneração das árvores. 

Para compreender melhor quais os fatores associados ao declínio e à maior vulnerabilidade das árvores, a equipa analisou dados de monitorização recolhidos em oito locais de Portugal e Espanha, abrangendo cerca de 350 hectares e mais de 2.000 árvores. 

Os resultados mostram que os sinais associados à presença de agentes bióticos estão entre os fatores mais fortemente relacionados com a desfoliação. A presença de ramos mortos, de insetos conhecidos como capricórnios, da família Cerambycidae, e de podridão do tronco esteve associada a níveis mais elevados de perda de folhagem. 

Mas a dimensão das árvores também revelou uma relação importante com o seu estado sanitário. Árvores com maior diâmetro do tronco apresentaram maior probabilidade de níveis elevados de desfoliação.

Ou seja, a dimensão de uma árvore pode dizer-nos mais sobre a sua condição do que simplesmente o seu tamanho. 

Mas há um outro lado da história. 

Se as árvores de maior dimensão podem apresentar maior vulnerabilidade, será que essa dimensão traz também alguma vantagem? 

A resposta está na reprodução. 

A análise da produção de bolotas revelou uma relação positiva entre a altura das árvores e a sua capacidade de produção: árvores mais altas tendem a produzir mais bolotas. 

Mas, mais uma vez, a história muda quando olhamos para o estado sanitário. 

No caso do sobreiro, as árvores localizadas em zonas com pior estado sanitário produziram significativamente menos bolotas. Na azinheira, apesar da elevada variabilidade observada, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na produção entre árvores localizadas em condições sanitárias favoráveis e desfavoráveis. 

Os resultados mostram, assim, que crescer, manter a saúde e reproduzir não são processos independentes. A relação entre estas dimensões varia entre espécies e pode depender das condições a que as árvores estão sujeitas. 

“Frequentemente, presume-se que árvores maiores e mais velhas sejam um indicador de um montado saudável e resiliente. No entanto, o nosso estudo revela que o porte da árvore é, na verdade, uma faca de dois gumes. Embora as árvores de grande porte tenham capacidade para produzir um maior número de bolotas, o seu tamanho também pode estar associado a uma maior vulnerabilidade a determinados fatores bióticos, como é o caso das pragas, como os capricórnios (Cerambyx spp.), uma vez que o volume do tronco é maior, conferindo mais alimento e mais espaço para essa praga se desenvolver.”, explica Maysa Toledo, estudante de doutoramento do InnovPlantProtect.

“A presença de pragas danifica severamente as copas e levam espécies como o sobreiro a interromper a reprodução, para reservar energia para a própria sobrevivência.”, acrescenta.

O que muda na forma como devemos olhar para uma árvore? 

Uma árvore de maior dimensão pode representar um recurso importante para a regeneração, devido ao seu maior potencial de produção de bolotas. Ao mesmo tempo, algumas das características associadas a árvores maiores e mais maduras podem estar relacionadas com uma maior vulnerabilidade a determinados agentes bióticos e ao declínio. 

Proteger árvores com elevado potencial reprodutivo pode, por isso, significar também dar particular atenção ao seu estado sanitário.

A monitorização assume aqui um papel fundamental. A identificação atempada de sinais associados ao declínio pode contribuir para acompanhar de forma mais direcionada as árvores com maior valor estrutural e reprodutivo e apoiar decisões de gestão mais informadas. 

No entanto, os investigadores alertam também para uma questão importante: produzir mais bolotas não significa necessariamente garantir a regeneração do ecossistema. 

A sobrevivência e o estabelecimento de novas árvores dependem de outros fatores, incluindo a disponibilidade de água, a predação, o pastoreio, as características do solo e as condições microclimáticas. 

Para os responsáveis por estes ecossistemas, como explica Maysa Toledo, “a lição fundamental é que não podemos depender apenas da elevada produção de sementes. Para garantir a próxima geração de carvalhos, é importante proteger ativamente as árvores mais antigas contra fatores de stress biótico e, simultaneamente, preservar as condições necessárias à sobrevivência e ao crescimento das bolotas”.

Monitorizar hoje para compreender amanhã 

Mais do que identificar uma única causa para o declínio, este trabalho mostra a importância de compreender o ecossistema como um sistema interligado, onde a dimensão das árvores, a sua saúde e a capacidade reprodutiva podem estar simultaneamente relacionadas.

Neste contexto, os autores defendem a importância de perceber como estas relações evoluem ao longo do tempo, através de uma monitorização plurianual, capaz de acompanhar a evolução do estado sanitário e da reprodução das árvores e de aprofundar o conhecimento sobre a interação entre fatores ambientais e bióticos.

Esta perspetiva pode contribuir para estratégias de gestão e conservação florestal mais direcionadas, ajudando a identificar e proteger árvores particularmente relevantes para a manutenção e regeneração dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos.

Artigo científico

Título: Drivers of tree health and reproduction in mediterranean oaks: Trade-offs between tree size, biotic stress, and acorn production

Revista: Forest Ecology and Management, Volume 620, 2026, 124166

Autores: Maysa Hernandes Ricardo Toledo, Ilaria Marengo, Neftalí Sillero, Nuno Faria e Mario Campos Cunha

DOI: 10.1016/j.foreco.2026.124166

O estudo foi desenvolvido com base em dados de iniciativas de monitorização de ecossistemas de carvalhos mediterrânicos em Portugal e Espanha, incluindo o projeto MoniTREEng – Monitorização da saúde, produtividade e regeneração natural dos Quercus sp. e o projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em montado/dehesa”, financiado pela Fundação “la Caixa”, em colaboração com o Banco BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

InPP participa no Dia de Campo InovMilho’26 com intervenção sobre o vírus do nanismo no milho

A participação do investigador Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, centrou-se nos desafios associados ao vírus do nanismo e no trabalho desenvolvido pelo InPP para compreender a sua ocorrência, acompanhar os seus vetores e contribuir para estratégias de proteção mais eficazes.

O InnovPlantProtect (InPP) esteve presente no Dia de Campo InovMilho’26, organizado pela ANPROMIS, que decorreu no passado dia 2 de setembro, na Estação Experimental António Teixeira (INIAV), em Coruche.

O investigador do InPP Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, participou como orador na sessão “Produção de milho em Portugal: que condicionantes e oportunidades se nos colocam?”, com uma intervenção dedicada ao tema “Vírus do nanismo: como minimizar os seus impactos?”.

Compreender a ocorrência do vírus no território

A ocorrência e dispersão de agentes causadores de doenças na cultura do milho constituem um dos desafios que o InPP procura compreender através da monitorização e análise das populações presentes no território nacional.

Neste âmbito, a equipa está a estudar a prevalência do vírus do nanismo nas populações de milho, acompanhando a sua ocorrência numa área que se estende desde a região de Coimbra até ao Alentejo.

Este trabalho permite recolher informação sobre a distribuição do vírus e contribuir para um conhecimento mais aprofundado da sua presença na cultura do milho em diferentes regiões.

Monitorizar os vetores para antecipar a dispersão

Para além da presença do vírus, a investigação do InPP incide também sobre as dinâmicas populacionais dos seus vetores.

O acompanhamento destas populações ao longo dos anos permitirá identificar tendências e padrões na sua ocorrência. A informação obtida poderá, posteriormente, contribuir para o desenvolvimento de modelos preditivos capazes de apoiar a compreensão da dispersão do vírus no território.

A possibilidade de antecipar onde e quando poderão surgir condições favoráveis à disseminação do vírus poderá contribuir para uma abordagem mais preventiva à proteção da cultura.

Identificar variedades menos suscetíveis

Paralelamente, a equipa do InPP está interessada em identificar variedades de milho menos suscetíveis ao vírus, procurando compreender quais poderão apresentar menor impacto perante a sua presença.

A identificação de materiais vegetais com menor suscetibilidade poderá constituir uma componente importante de futuras estratégias de proteção, complementando outras medidas de monitorização e gestão.

O trabalho desenvolvido pelo InPP nesta área procura, assim, conjugar monitorização, conhecimento epidemiológico e identificação de soluções que possam contribuir para uma gestão mais eficaz dos problemas fitossanitários na cultura do milho.

Um espaço de encontro entre ciência e setor produtivo

O Dia de Campo InovMilho’26 reuniu cerca de 260 participantes de todo o país, proporcionando um espaço de encontro e partilha entre a comunidade científica e académica, o setor produtivo e as empresas ligadas à fileira do milho.

Ao longo da iniciativa foram apresentadas técnicas, tecnologias e trabalhos de investigação relacionados com os desafios e oportunidades da cultura do milho em Portugal, promovendo a transferência de conhecimento e a criação de sinergias entre diferentes intervenientes do setor.

A participação do InPP nesta iniciativa permitiu dar a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido na área da monitorização inteligente de pragas e doenças, reforçando a importância da investigação aplicada para responder aos desafios fitossanitários que se colocam à agricultura nacional.

O InPP agradece à sua associada ANPROMIS o convite para participar no Dia de Campo InovMilho’26 e a oportunidade de partilhar o trabalho desenvolvido nesta área.

Veja o vídeo institucional do Dia de Campo InovMilho’26, disponibilizado pela ANPROMIS aqui.

Investigadores do InPP partilham conhecimento sobre o futuro da proteção de plantas em Summer School internacional

Dois investigadores do InnovPlantProtect participaram como oradores na International Summer School 2026, em Berlim, onde apresentaram diferentes perspetivas sobre o desenvolvimento de biossoluções e formulações para uma proteção das culturas mais segura e sustentável.

Os investigadorees do InnovPlantProtect (InPP), Tiago Amaro e Alexandra Machado, participaram, enquanto oradores, na International Summer School 2026 – “Soft Multiphase Materials for Next Generation Bio-pesticides: From Lab to Field”, que decorreu em Berlim, no âmbito da rede doutoral europeia BIOMAC-BP.

Realizada no Seminaris CampusHotel Berlin, a iniciativa reuniu investigadores e especialistas de diferentes áreas em torno do desenvolvimento de novas soluções para a proteção das culturas, promovendo a partilha de conhecimento e a colaboração entre diferentes disciplinas científicas.

Duas perspetivas sobre o futuro da proteção das culturas

Durante a manhã de 18 de setembro, Tiago Amaro, investigador da subárea de Proteção de Plantas do InPP, apresentou a sessão “Beyond Synthetic Pesticides: Next-Generation Biosolutions for Crop Protection”.

A apresentação abordou o potencial das biossoluções de nova geração enquanto alternativas aos pesticidas sintéticos, refletindo sobre novas abordagens para responder aos desafios atuais da proteção das culturas.

Também Alexandra Machado, investigadora da subárea de Agroformulações, participou como oradora, com a apresentação “Great Bioactives are Worthless Without Great Formulations”.

A intervenção destacou a importância das formulações no desenvolvimento de soluções baseadas em compostos bioativos. Para que um bioativo promissor possa traduzir-se numa solução eficaz e com potencial de aplicação no campo, a formulação desempenha um papel determinante, contribuindo para o seu desempenho, estabilidade e aplicabilidade.

As duas intervenções evidenciaram, assim, a complementaridade entre diferentes áreas de investigação e diferentes etapas no desenvolvimento de soluções para a proteção das culturas: desde a identificação e desenvolvimento de novas biossoluções até à sua formulação para uma aplicação eficaz.

Ciência que se partilha além-fronteiras

A participação de Tiago Amaro e Alexandra Machado enquanto oradores nesta Summer School internacional permitiu ao InPP reforçar a sua presença em redes científicas europeias e contribuir para a discussão em torno do futuro da proteção de plantas.

Mais do que uma oportunidade de partilha de conhecimento, estes momentos permitem criar novas ligações, promover a colaboração científica e aproximar diferentes áreas de investigação, contribuindo para o desenvolvimento de soluções mais seguras, eficazes e sustentáveis para a agricultura.

É também através da circulação do conhecimento — entre investigadores, instituições e áreas científicas — que a investigação pode continuar a transformar-se em inovação com aplicação no campo.

Inovar juntos. Proteger melhor.

WhatsApp Image 2026 09 18 at 12.34.58

EVENTOS

Prevenir em vez de remediar? A expansão da Xylella em Portugal

Há pelo menos dois anos que o CoLAB InnovPlantProtect tem pronta uma estratégia para desenvolver uma solução biológica contra a Xylella fastidiosa. No entanto, até hoje, não foi possível encontrar fundos públicos ou privados para materializar este projeto.

Parece contudo inevitável a necessidade do seu desenvolvimento, uma vez que esta bactéria patogénica, que produz uma doença que mata oliveiras, amendoeiras e vinhas, entre dezenas de outras plantas, está já presente em três zonas de Portugal (Porto, Queluz e Algarve) e os seus vetores existem em todo o território.

Quando irá o país perceber que tem de investir já – na realidade, devia tê-lo feito há dois anos – para que esta doença extremamente agressiva não se espalhe pelos olivais e amendoais portugueses? Porque é que não se faz investimento na prevenção, em vez de esperar pelo desastre e deitar então as mãos à cabeça?


Pedro Fevereiro, CEO do InnovPlantProtect, Professor Catedrático Convidado, ITQB NOVA

Fotografia do principal inseto vetor da Xylella fastidiosa e micrografia da bactéria

“Temos de reduzir a afetação do Alentejo pelas alterações climáticas”

Para a reitora da Universidade de Évora, instituição associada do InnovPlantProtect, a participação no CoLAB de Elvas era “imprescindível” e um passo que a instituição tinha de dar. Ana Costa Freitas, que vai de bicicleta para o trabalho e recebe alunos no gabinete, considera os laboratórios colaborativos instrumentais para fazer reviver o Interior com emprego qualificado. Quanto à biotecnologia de plantas, é perentória: não é possível alimentar toda a população sem a genómica.

Veja o vídeo no nosso canal no YouTube

Texto: Eva Ceia/ InnovPlantProtect
Fotografia: Joaquim Miranda

Ana Costa Freitas, reitora da Universidade de Évora, fotografada por Joaquim Miranda.

Porque é que a Universidade de Évora (UÉ) se fez associada do laboratório colaborativo InnovPlantProtect (InPP)?

A Universidade de Évora não estava no consórcio inicial. Quando soube que havia o consórcio, falei com o reitor da Universidade NOVA e disse-lhe que estávamos interessados em fazer parte do Laboratório. Disse, aliás, ‘nós temos de entrar’. Eu acho que estes laboratórios colaborativos são o passo seguinte da estratégia e das políticas públicas de ciência. São um passo à frente daquilo que tivemos anteriormente: começámos pelos centros de investigação, depois os laboratórios associados e agora os CoLAB, que têm as empresas envolvidas no processo.

Considero aliás que os CoLAB são uma ideia interessante e vanguardista, e o facto de estarem dispersos no território é fundamental, até porque não reconheço no Governo muitas políticas para o Interior. Ainda assim, reconheço no Ministério da Ciência [Tecnologia e Ensino Superior] mais políticas para o Interior. Em suma, é fundamental termos nestes locais capacidade de emprego, e de emprego qualificado. E depois porque a Universidade de Évora tem na sua génese uma forte influência das áreas da agricultura e da biologia; tivemos uma grande ligação com a Estação [de Melhoramento de Plantas] em Elvas. [O InPP tem sede no INIAV Elvas, também associado do CoLAB].

A UÉ já estava na génese, ou já era associada, de outros CoLAB. O que é que o InPP acrescenta à Universidade?

Não éramos [associados] de nenhum nesta área. E esta área é importantíssima para a Universidade de Évora, para a região e para o país. É uma área fulcral no nosso funcionamento porque faz parte de nós. Por exemplo, o nosso maior centro de investigação é o MED [Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento]. É uma área, como todas as áreas da ciência, que deve ser cada vez mais transversal, o que implica muitos investigadores. É uma área da qual não podíamos ficar de fora. Era necessário dar este passo.

Fala da biotecnologia de plantas, da proteção de culturas…

As duas – a proteção de culturas e a biotecnologia de plantas –, visto que, mais do que o laboratório em si, é todo um processo. Há o solo, as plantas, a proteção da planta, (…) Apesar do laboratório estar mais focado na proteção de culturas mediterrânicas.

Para nós e no imediato, o Mediterrâneo é uma área de eleição; depois, a parte da sustentabilidade deste ecossistema é muito importante. A tudo isto liga-se a necessidade que temos de reduzir a o uso intensivo dos recursos. Esse “bocadinho” que está no InPP está em toda a fileira na qual a Universidade de Évora tem muito interesse, muito impacto e muito trabalho desenvolvido. Por isso repito, era imprescindível que estivéssemos [no CoLAB].

Concretamente, neste momento, em que consiste o papel da UÉvora neste projeto?

Temos uma investigadora que está especificamente ligada ao CoLAB, que é a Maria Rosário Félix, quejá tinha trabalhado várias vezes com o Pedro Fevereiro [diretor executivo do InPP]. Sei que têm vários projetos em colaboração; um deles é uma vacina para proteger plantas, mais particularmente as oliveiras da Xylella fastidiosa (uma bactéria da classe das Gammaproteobacterias). A Rosário tem feito um trabalho muito bom e era importante alargar a sua rede de contactos. As Universidades ditas pequenas têm grupos de investigação geralmente mais pequenos; e que, obviamente, temos de alargar, para consolidá-los ainda mais.

Universidade pequena?…

Para o contexto das universidades portuguesas… Geralmente, as universidades localizadas no Litoral têm acima de vinte mil alunos, enquanto as universidades localizadas no Interior têm cerca de oito a nove mil. Nos últimos anos, registámos um aumento do número de alunos e isso é bastante positivo. No que respeita a mestrados e doutoramentos, são mais difíceis de captar, mas a Universidade de Évora tem conseguido resultados muitos positivos; por exemplo, temos mais ou menos a mesma percentagem que a Universidade de Lisboa.

Agora, temos imensas vantagens. Tem vantagens para os alunos porque têm uma ligação muito mais forte com os docentes, muito maior proximidade… Recebo e-mails de alunos, recebo alunos aqui no meu gabinete; não é vulgar os reitores fazerem isto nas universidades ditas grandes. Temos muitos bons grupos de investigação, temos muitos centros classificados com “excelente e “muito bom”, mas formar um grupo de investigação e crescer torna-se mais difícil. Porque há menos gente aqui, portanto, as pessoas têm de se deslocar; depois têm de arranjar casa, fixar-se no território… E na investigação, o emprego ainda não é um emprego fixo. Atualmente temos cem investigadores mas, com contrato permanente, não temos muitos. A maior parte têm contrato a seis anos, renovável, obviamente, continuam nos seus projetos…

Por outro lado, o facto de os grupos serem mais pequenos é mais exigente. Em Portugal, nos últimos dez, vinte anos é que começamos a reconhecer a importância das redes de investigação. Nós tínhamos em Portugal, infelizmente – isto é uma opinião particular –, demasiadas “quintinhas de investigação” e competindo muito uns com os outros. Hoje, essa questão está mais atenuada. O alargar destas redes de investigação é muito importante porque um grupo pequeno dificilmente se afirma internacionalmente. A Universidade é pequena em número, não é pequena em qualidade.

No caso do InPP, como vê a participação das empresas? Acha que a estratégia seguida permite o desenvolvimento de uma atividade em conjunto?

Espero que sim. Nós estamos envolvidos noutros CoLAB, no Laboratório Colaborativo em Transformação Digital (DTx), com sede no Minho, que têm tido projetos com algumas empresas e têm empresas na sua constituição, que é obrigatório. Do InPP, tenho tido um pouco mais de feedback, nomeadamente até mesmo da autarquia. Estamos no princípio. Há vários aspetos que considero importantes: o corpo de investigadores que já têm, o fixar dessas pessoas em Elvas e a ligação às empresas – eu acho que é fundamental e tem sido bem-sucedido. Por outro lado, o InPP teve um aspeto difícil, que foi não ter instalações. As obras estão para acabar em breve, o que vai ser um passo importante.

Nós temos a Fertiprado e duas grandes empresas, a Syngenta Crop Protection e a Bayer CropScience. Acha possível empresas e laboratório colaborarem efetivamente?

Eu acho que sim. A base dos laboratórios colaborativos é darem resposta a problemas colocados pelas empresas e acho muito interessante o modelo de ter grandes e pequenas empresas envolvidas no Laboratório.

Neste momento temos um projeto com a Fertiprado, para uma solução específica, de identificação e combate a um agente patogénico que ataca o trevo-da-pérsia…

Creio que as grandes empresas irão procurar uma prestação de serviço, ‘nós precisamos disto’, e a Fertiprado quer desenvolver soluções. As pequenas empresas em Portugal precisam de se ‘habituar’ a que a investigação é essencial para o modelo de negócio que estão a desenvolver. Isso a meu ver é o que falta. Se não fosse assim, teríamos mais emprego de doutorados nas empresas. Ainda não há o reconhecimento da necessidade de apostarem na investigação. Por isso é ótimo que essa transformação esteja a acontecer, quer dizer que estamos a conseguir fazer aquilo que eu acho que os CoLAB têm como fim.

Tendo em conta que uma Syngenta ou uma Bayer já têm os seus próprios departamentos de I&D montados, o que é que o CoLAB pode oferecer-lhes?

Um laboratório de investigação pode sempre oferecer uma base que é o conhecimento. Infelizmente, o conhecimento não é muito valorizado no nosso país. As pessoas só valorizam o conhecimento quando o transformam num retorno financeiro. E o conhecimento é muito mais do que isso. As grandes empresas, quando necessitarem, sabem que têm uma base de conhecimento, que é sempre importante. Nem que seja para discutir problemas. É fazerem uso do conhecimento. E isso para eles, para essas empresas, é importante.

Esta área, da biotecnologia e das novas técnicas genómicas (NTG) aplicadas à proteção de culturas, é problemática em termos de regulamentação. No final de abril, a Comissão Europeia reconheceu que a legislação aprovada em 2001 para os organismos geneticamente modificados (OGM) não serve e prometeu abrir um diálogo alargado. Como vê este futuro…

O problema da União Europeia [UE] é que são 27 países que têm todos de se pôr em acordo. Nós queixamo-nos muito do tempo que demoram as decisões da UE, mas não há mais ninguém no mundo que tenha que ter os acordos aprovados por 27 chefes de Estado e de Governo. ­Essa discussão vai ser feita, mas é complicada. Poderemos, para acelerar, pegar na discussão ao contrário; ou seja, não é possível eventualmente alimentar toda a população se não usarmos a genómica. Temos de ver pelo lado mais positivo. Agora, vai demorar tempo.

Mas também acho que é um bom passo. É um passo que era inevitável. O contrário é que era estranho. É ciência. É evidência científica, ponto. A dificuldade de termos políticas públicas, sejam elas quais forem, baseadas em evidência científica… se fosse assim, éramos todos mais felizes. Eu acho que éramos, porque a ciência é a única coisa que pode promover um desenvolvimento sustentável, é a base científica das coisas. E nós estamos a ver “assassinatos” à sustentabilidade diariamente. E depois temos estes casos, que são uma venda à frente dos olhos. É não querer ver para além disto. E não conseguir interpretar o problema pelo lado científico; nem querer, que é pior ainda. Porque politicamente pode ser incorreto.

Acha que o InPP vai conseguir vencer este desafio?

Acho que sim. É tudo uma questão de informação e de comunicação. É um bocado um modelo de comunicação. Não é nada que não se faça. Para já, a sigla OGM não pode ser usada, ponto. A partir daí, praticamente tudo é permitido.

Acha que há um grande trabalho a fazer em termos de comunicação científica? No sentido de explicar que as NTG não são o que tínhamos há 20 anos?

Se nós explicarmos o proveito que as coisas têm… É preciso um trabalho de comunicação muito forte, que é fundamental, porque é o futuro. Não pode ser de outra maneira. A comunicação de ciência tem mais desafios porque não se pode comunicar ciência com palavras científicas. Temos de ter um modelo de discurso que chegue às pessoas. Eu tenho assistido quase que extasiada a todo o problema da Covid-19. Só o facto de o primeiro-ministro dizer que fala com os cientistas e nenhum lhe diz exatamente se deve desconfinar ou não… Não lhe pode dizer exatamente! Mesmo que pudesse, essa será sempre uma decisão política. Ele pode ouvir quem quiser e no fim tem de decidir, tendo absorvido o máximo de conhecimento possível.

Qual acha que será o impacto mais importante do InPP?

Bom, os resultados da investigação de certeza que têm impacto, mas têm impacto a longo prazo. Para mim, o importante é fazer reviver estas cidades. O facto de já terem 38 pessoas que vivem lá, que têm uma maneira de pensar diferente, que não estão acabrunhadas pela solidão… e Elvas é um caso até particular, porque tem a cidade de Badajoz ao lado… Eu acho que vai ser muito importante fazer reviver estes territórios. Os territórios do Interior do Alentejo são um terço do país, ao qual o país não liga. Não têm gente. Évora tem cerca de 50.000 habitantes, e Évora é a mais populosa – elege três deputados, Portalegre dois, Beja outros três; e a tendência é diminuir. Não têm impacto nenhum nos resultados eleitorais. Considero que a lei eleitoral devia de ser alterada.

As políticas públicas, mal, são a curto prazo. E o retorno em termos eleitorais, aqui, é muito pequeno. Eu acho lindamente a rede de Metro em Lisboa mas não há transportes no Alentejo. É mais “barato” para um aluno que viva em Estremoz ir estudar para Lisboa, do que vir de Estremoz para Évora. E quem diz Estremoz, que está a 46 km, diz Viana do Alentejo, que está a cerca de 30 km. Nós não temos verdadeiramente uma rede de transportes. Devia-se investir nessa área mas não é rentável, há pouca gente…

Por isso acho que esse é o grande impacto do inPP: mais pessoas a dizer que se pode viver, e bem, no Alentejo, e o Alentejo ter para oferecer condições, que tem, importantíssimas, de qualidade de vida. Para lhe dar um exemplo, venho sempre de bicicleta para a Universidade. Nós temos boas condições de vida, é preciso é que o território seja capaz de oferecer às pessoas empregos, habitação… porque se não tivermos empregos e habitação para as pessoas qualificadas, elas não vêm.

O InnovPlantProtect é um projeto que considero estruturante para a região e para o país

Ana Costa Freitas

O InPP é o único CoLAB dedicado à biotecnologia para a proteção de culturas. Que outros desafios tem pela frente?

O único desafio realmente importante é o êxito. Tem que ter êxito. Para conseguirmos que funcione bem é preciso garantirmos que vão ter êxito; o que depende de nós até certa medida.

E a fórmula para o êxito?

É preciso que o retorno para as empresas seja importante e que as pessoas realmente se possam fixar. É importante garantir que as pessoas gostam do que estão a fazer, estão a fazer algo que consideram útil e que se querem manter. Um bom investigador tem paixão pelo que faz, “gosta mesmo daquilo” e tem uma curiosidade inata. Veja por exemplo o êxito que os Laboratórios de Estado tiveram no princípio e depois estagnaram, porque deixaram de ter investimento.

É preciso nunca esquecermos isto: o modelo da investigação em ciência em Portugal – e esse é um modelo que vai ligar às empresas e, portanto, tem-se esperança que as empresas comecem a investir também – é competitivo: o Estado não financia convenientemente a investigação e por esse motivo temos de garantir verbas para investigação. Não considero que seja absolutamente um mau modelo, mas é competitivo. É preciso que as pessoas mantenham o entusiasmo para conseguirem estar sempre a candidatar-se a projetos. Este é um dos grandes desafios.

Como reage à atribuição do Prémio Vida Rural “Investimento que Marca” 2021 ao InPP?

O facto de este CoLAB ser considerado “o investimento mais relevante no último ano no setor agrícola e agroindustrial nacional” reforça a sua real importância a nível nacional. O InnovPlantProtect é um projeto que considero estruturante para a região e para o país, pois é fundamental em termos de investigação, de capacidade de emprego, e de emprego qualificado numa atividade crucial para a nossa economia como é o caso da agricultura, e numa região em que a urgência da criação de emprego qualificado é estruturante. Este prémio é, consequentemente, muito merecido, mas é também desafiante. Criaram-se expectativas muito elevadas que temos a obrigação de cumprir para corresponder ao desafio que abraçámos e que só pode ser ganhador.

Entrevista publicada em primeira mão pela Vida Rural, edição agosto 2021.

Atualizado em 4/11/2021

InPP ganha “Promove” para combater doença do declínio do montado

Inteligência artificial ao serviço da previsão e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em ecossistemas de sobreiro e azinheira merece apoio da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI, e da FCT.

O projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em montado/ dehesa”, liderado pelo InnovPlantProtect (InPP), é um dos vencedores da 3ª edição do Programa Promove, na categoria de projetos-piloto inovadores. No total, mais de 2,5 milhões de euros serão destinados pela Fundação ”la Caixa”, BPI e Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), no âmbito deste programa, para o desenvolvimento das regiões do interior de Portugal.

Resultado de uma colaboração entre Portugal e Espanha, o projeto liderado pelo InPP, laboratório colaborativo (CoLAB) com sede em Elvas, visa desenvolver e testar, em ambos os países, um sistema de alerta e deteção precoce (Early Detection Warning System, ou EDWS, na sigla inglesa) para controlar a dispersão da doença do declínio do montado, que afeta estes ecossistemas de forma irreversível.

A doença é causada por um organismo fúngico (um oomiceto) chamado Phytophthora cinnamomi e assume um caráter preocupante dada a importância do montado/ dehesa nas economias local e global tanto portuguesas como espanholas. O montado/ dehesa fornece serviços como a produção de cortiça e lenha, alimento para espécies animais (porco preto e gado), sequestro de carbono, redução da erosão do solo, e habitat para espécies raras e endémicas, além de constituir um espaço recreativo.

Com recurso à inteligência artificial, entre outras tecnologias, o sistema proposto permitirá desenvolver mapas preditivos da dispersão espacial do agente patogénico e produzir as devidas recomendações/ ações em caso de surto da doença. O projeto pretende também envolver ativamente todos aqueles que dependem economicamente do estado de conservação do montado/ dehesa, nomeadamente através da criação de um serviço de webGIS (sistema de informação geográfica online) gratuito e de fácil acesso.