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Árvores maiores, mais bolotas, mas também maior vulnerabilidade?

Um estudo do InnovPlantProtect revela uma relação complexa entre a dimensão das árvores, o seu estado sanitário e a produção de bolotas — com implicações para a monitorização e gestão dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos. 

À partida, uma árvore maior parece ser uma boa notícia. 

Uma árvore mais desenvolvida pode ter um papel importante na regeneração natural dos ecossistemas, através da produção de bolotas. Mas será que ser maior significa também uma maior capacidade para resistir ao declínio?

Os resultados de um novo estudo sugerem que a resposta não é assim tão simples. 

Investigadores do InnovPlantProtect e de outras instituições portuguesas e espanholas analisaram a saúde e a reprodução de carvalhos mediterrânicos, procurando compreender de que forma o tamanho das árvores e o seu estado sanitário se relacionam com a capacidade de produzir bolotas.

Nem todas as árvores estão igualmente expostas 

Os carvalhos mediterrânicos, como o sobreiro, a azinheira e o carvalho-negral, desempenham um papel importante nos ecossistemas de montado e dehesa da Península Ibérica. Estes sistemas enfrentam, contudo, diferentes pressões ambientais, que podem comprometer a saúde e a capacidade de regeneração das árvores. 

Para compreender melhor quais os fatores associados ao declínio e à maior vulnerabilidade das árvores, a equipa analisou dados de monitorização recolhidos em oito locais de Portugal e Espanha, abrangendo cerca de 350 hectares e mais de 2.000 árvores. 

Os resultados mostram que os sinais associados à presença de agentes bióticos estão entre os fatores mais fortemente relacionados com a desfoliação. A presença de ramos mortos, de insetos conhecidos como capricórnios, da família Cerambycidae, e de podridão do tronco esteve associada a níveis mais elevados de perda de folhagem. 

Mas a dimensão das árvores também revelou uma relação importante com o seu estado sanitário. Árvores com maior diâmetro do tronco apresentaram maior probabilidade de níveis elevados de desfoliação.

Ou seja, a dimensão de uma árvore pode dizer-nos mais sobre a sua condição do que simplesmente o seu tamanho. 

Mas há um outro lado da história. 

Se as árvores de maior dimensão podem apresentar maior vulnerabilidade, será que essa dimensão traz também alguma vantagem? 

A resposta está na reprodução. 

A análise da produção de bolotas revelou uma relação positiva entre a altura das árvores e a sua capacidade de produção: árvores mais altas tendem a produzir mais bolotas. 

Mas, mais uma vez, a história muda quando olhamos para o estado sanitário. 

No caso do sobreiro, as árvores localizadas em zonas com pior estado sanitário produziram significativamente menos bolotas. Na azinheira, apesar da elevada variabilidade observada, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na produção entre árvores localizadas em condições sanitárias favoráveis e desfavoráveis. 

Os resultados mostram, assim, que crescer, manter a saúde e reproduzir não são processos independentes. A relação entre estas dimensões varia entre espécies e pode depender das condições a que as árvores estão sujeitas. 

“Frequentemente, presume-se que árvores maiores e mais velhas sejam um indicador de um montado saudável e resiliente. No entanto, o nosso estudo revela que o porte da árvore é, na verdade, uma faca de dois gumes. Embora as árvores de grande porte tenham capacidade para produzir um maior número de bolotas, o seu tamanho também pode estar associado a uma maior vulnerabilidade a determinados fatores bióticos, como é o caso das pragas, como os capricórnios (Cerambyx spp.), uma vez que o volume do tronco é maior, conferindo mais alimento e mais espaço para essa praga se desenvolver.”, explica Maysa Toledo, estudante de doutoramento do InnovPlantProtect.

“A presença de pragas danifica severamente as copas e levam espécies como o sobreiro a interromper a reprodução, para reservar energia para a própria sobrevivência.”, acrescenta.

O que muda na forma como devemos olhar para uma árvore? 

Uma árvore de maior dimensão pode representar um recurso importante para a regeneração, devido ao seu maior potencial de produção de bolotas. Ao mesmo tempo, algumas das características associadas a árvores maiores e mais maduras podem estar relacionadas com uma maior vulnerabilidade a determinados agentes bióticos e ao declínio. 

Proteger árvores com elevado potencial reprodutivo pode, por isso, significar também dar particular atenção ao seu estado sanitário.

A monitorização assume aqui um papel fundamental. A identificação atempada de sinais associados ao declínio pode contribuir para acompanhar de forma mais direcionada as árvores com maior valor estrutural e reprodutivo e apoiar decisões de gestão mais informadas. 

No entanto, os investigadores alertam também para uma questão importante: produzir mais bolotas não significa necessariamente garantir a regeneração do ecossistema. 

A sobrevivência e o estabelecimento de novas árvores dependem de outros fatores, incluindo a disponibilidade de água, a predação, o pastoreio, as características do solo e as condições microclimáticas. 

Para os responsáveis por estes ecossistemas, como explica Maysa Toledo, “a lição fundamental é que não podemos depender apenas da elevada produção de sementes. Para garantir a próxima geração de carvalhos, é importante proteger ativamente as árvores mais antigas contra fatores de stress biótico e, simultaneamente, preservar as condições necessárias à sobrevivência e ao crescimento das bolotas”.

Monitorizar hoje para compreender amanhã 

Mais do que identificar uma única causa para o declínio, este trabalho mostra a importância de compreender o ecossistema como um sistema interligado, onde a dimensão das árvores, a sua saúde e a capacidade reprodutiva podem estar simultaneamente relacionadas.

Neste contexto, os autores defendem a importância de perceber como estas relações evoluem ao longo do tempo, através de uma monitorização plurianual, capaz de acompanhar a evolução do estado sanitário e da reprodução das árvores e de aprofundar o conhecimento sobre a interação entre fatores ambientais e bióticos.

Esta perspetiva pode contribuir para estratégias de gestão e conservação florestal mais direcionadas, ajudando a identificar e proteger árvores particularmente relevantes para a manutenção e regeneração dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos.

Artigo científico

Título: Drivers of tree health and reproduction in mediterranean oaks: Trade-offs between tree size, biotic stress, and acorn production

Revista: Forest Ecology and Management, Volume 620, 2026, 124166

Autores: Maysa Hernandes Ricardo Toledo, Ilaria Marengo, Neftalí Sillero, Nuno Faria e Mario Campos Cunha

DOI: 10.1016/j.foreco.2026.124166

O estudo foi desenvolvido com base em dados de iniciativas de monitorização de ecossistemas de carvalhos mediterrânicos em Portugal e Espanha, incluindo o projeto MoniTREEng – Monitorização da saúde, produtividade e regeneração natural dos Quercus sp. e o projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em montado/dehesa”, financiado pela Fundação “la Caixa”, em colaboração com o Banco BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

InPP participa no Dia de Campo InovMilho’26 com intervenção sobre o vírus do nanismo no milho

A participação do investigador Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, centrou-se nos desafios associados ao vírus do nanismo e no trabalho desenvolvido pelo InPP para compreender a sua ocorrência, acompanhar os seus vetores e contribuir para estratégias de proteção mais eficazes.

O InnovPlantProtect (InPP) esteve presente no Dia de Campo InovMilho’26, organizado pela ANPROMIS, que decorreu no passado dia 2 de setembro, na Estação Experimental António Teixeira (INIAV), em Coruche.

O investigador do InPP Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, participou como orador na sessão “Produção de milho em Portugal: que condicionantes e oportunidades se nos colocam?”, com uma intervenção dedicada ao tema “Vírus do nanismo: como minimizar os seus impactos?”.

Compreender a ocorrência do vírus no território

A ocorrência e dispersão de agentes causadores de doenças na cultura do milho constituem um dos desafios que o InPP procura compreender através da monitorização e análise das populações presentes no território nacional.

Neste âmbito, a equipa está a estudar a prevalência do vírus do nanismo nas populações de milho, acompanhando a sua ocorrência numa área que se estende desde a região de Coimbra até ao Alentejo.

Este trabalho permite recolher informação sobre a distribuição do vírus e contribuir para um conhecimento mais aprofundado da sua presença na cultura do milho em diferentes regiões.

Monitorizar os vetores para antecipar a dispersão

Para além da presença do vírus, a investigação do InPP incide também sobre as dinâmicas populacionais dos seus vetores.

O acompanhamento destas populações ao longo dos anos permitirá identificar tendências e padrões na sua ocorrência. A informação obtida poderá, posteriormente, contribuir para o desenvolvimento de modelos preditivos capazes de apoiar a compreensão da dispersão do vírus no território.

A possibilidade de antecipar onde e quando poderão surgir condições favoráveis à disseminação do vírus poderá contribuir para uma abordagem mais preventiva à proteção da cultura.

Identificar variedades menos suscetíveis

Paralelamente, a equipa do InPP está interessada em identificar variedades de milho menos suscetíveis ao vírus, procurando compreender quais poderão apresentar menor impacto perante a sua presença.

A identificação de materiais vegetais com menor suscetibilidade poderá constituir uma componente importante de futuras estratégias de proteção, complementando outras medidas de monitorização e gestão.

O trabalho desenvolvido pelo InPP nesta área procura, assim, conjugar monitorização, conhecimento epidemiológico e identificação de soluções que possam contribuir para uma gestão mais eficaz dos problemas fitossanitários na cultura do milho.

Um espaço de encontro entre ciência e setor produtivo

O Dia de Campo InovMilho’26 reuniu cerca de 260 participantes de todo o país, proporcionando um espaço de encontro e partilha entre a comunidade científica e académica, o setor produtivo e as empresas ligadas à fileira do milho.

Ao longo da iniciativa foram apresentadas técnicas, tecnologias e trabalhos de investigação relacionados com os desafios e oportunidades da cultura do milho em Portugal, promovendo a transferência de conhecimento e a criação de sinergias entre diferentes intervenientes do setor.

A participação do InPP nesta iniciativa permitiu dar a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido na área da monitorização inteligente de pragas e doenças, reforçando a importância da investigação aplicada para responder aos desafios fitossanitários que se colocam à agricultura nacional.

O InPP agradece à sua associada ANPROMIS o convite para participar no Dia de Campo InovMilho’26 e a oportunidade de partilhar o trabalho desenvolvido nesta área.

Veja o vídeo institucional do Dia de Campo InovMilho’26, disponibilizado pela ANPROMIS aqui.

Investigadores do InPP partilham conhecimento sobre o futuro da proteção de plantas em Summer School internacional

Dois investigadores do InnovPlantProtect participaram como oradores na International Summer School 2026, em Berlim, onde apresentaram diferentes perspetivas sobre o desenvolvimento de biossoluções e formulações para uma proteção das culturas mais segura e sustentável.

Os investigadorees do InnovPlantProtect (InPP), Tiago Amaro e Alexandra Machado, participaram, enquanto oradores, na International Summer School 2026 – “Soft Multiphase Materials for Next Generation Bio-pesticides: From Lab to Field”, que decorreu em Berlim, no âmbito da rede doutoral europeia BIOMAC-BP.

Realizada no Seminaris CampusHotel Berlin, a iniciativa reuniu investigadores e especialistas de diferentes áreas em torno do desenvolvimento de novas soluções para a proteção das culturas, promovendo a partilha de conhecimento e a colaboração entre diferentes disciplinas científicas.

Duas perspetivas sobre o futuro da proteção das culturas

Durante a manhã de 18 de setembro, Tiago Amaro, investigador da subárea de Proteção de Plantas do InPP, apresentou a sessão “Beyond Synthetic Pesticides: Next-Generation Biosolutions for Crop Protection”.

A apresentação abordou o potencial das biossoluções de nova geração enquanto alternativas aos pesticidas sintéticos, refletindo sobre novas abordagens para responder aos desafios atuais da proteção das culturas.

Também Alexandra Machado, investigadora da subárea de Agroformulações, participou como oradora, com a apresentação “Great Bioactives are Worthless Without Great Formulations”.

A intervenção destacou a importância das formulações no desenvolvimento de soluções baseadas em compostos bioativos. Para que um bioativo promissor possa traduzir-se numa solução eficaz e com potencial de aplicação no campo, a formulação desempenha um papel determinante, contribuindo para o seu desempenho, estabilidade e aplicabilidade.

As duas intervenções evidenciaram, assim, a complementaridade entre diferentes áreas de investigação e diferentes etapas no desenvolvimento de soluções para a proteção das culturas: desde a identificação e desenvolvimento de novas biossoluções até à sua formulação para uma aplicação eficaz.

Ciência que se partilha além-fronteiras

A participação de Tiago Amaro e Alexandra Machado enquanto oradores nesta Summer School internacional permitiu ao InPP reforçar a sua presença em redes científicas europeias e contribuir para a discussão em torno do futuro da proteção de plantas.

Mais do que uma oportunidade de partilha de conhecimento, estes momentos permitem criar novas ligações, promover a colaboração científica e aproximar diferentes áreas de investigação, contribuindo para o desenvolvimento de soluções mais seguras, eficazes e sustentáveis para a agricultura.

É também através da circulação do conhecimento — entre investigadores, instituições e áreas científicas — que a investigação pode continuar a transformar-se em inovação com aplicação no campo.

Inovar juntos. Proteger melhor.

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EVENTOS

InPP participou em Dia de Campo organizado pela Fertiprado

No dia 18 de março, o InnovPlantProtect (InPP) participou no Dia de Campo Ucanorte XXI, organizado pelo nosso associado Fertiprado.

A manhã arrancou com uma sessão em auditório que contou com a participação do InPP. António Saraiva, diretor executivo do CoLAB, deu a conhecer o InPP e as diferentes soluções e tecnologias inovadoras que estão a ser desenvolvidas para proteger as culturas. Ricardo Ramiro, diretor do departamento de Gestão de Dados e Análise de Risco, foi outro dos oradores que apresentou os serviços que podem ser de utilidade para os produtores de silagem de milho.

Samira Andrade, investigadora da Fertiprado, partilhou os resultados promissores da sua colaboração com a equipa do InPP no revestimento de sementes.

Um enorme agradecimento à Fertiprado pelo convite e pela oportunidade de fortalecer a nossa parceria!

Créditos das imagens: Fertiprado

Fotos da esquerda para a direita: António Saraiva, diretor executivo do InPP; Ricardo Ramiro, diretor do departamento de Gestão de Dados e Análise de Risco e Samira Andrade, investigadora da Fertiprado a colaborar com o CoLAB

ValorCannBio: O Futuro Sustentável do Olival Nascido da Canábis

O InPP é líder num projeto que quer desenvolver biopesticidas sustentáveis e eficazes para controlar duas das mais importantes doenças do olival, a gafa e a tuberculose. Este biopesticida obtido através da biomassa vegetal remanescente da produção de canábis com fins medicinais, vai inovar e impulsionar a sustentabilidade nesta indústria em franca expansão em Portugal. Com um investimento da Fundação “la Caixa” de 150 mil euros, o ValorCannBio promete revolucionar o setor, posicionando-o como um importante agente na economia circular e na redução do desperdício.

É preciso viajar até ao coração do Mediterrâneo, uma das regiões mais vulneráveis às alterações climáticas, para chegarmos até ao olival, cultura milenar e motor económico, e compreendermos a batalha árdua que enfrenta. A gafa e a tuberculose, duas das mais importantes doenças do olival, ameaçam a produção de azeite, um dos produtos de exportação mais valiosos de Portugal, especialmente no Alentejo, onde se concentra 75% da produção nacional.

A gafa, causada pelo fungo Colletotrichum sp., pode dizimar até 80% da produção, representando perdas de mais de 50 milhões de euros e ameaçando variedades tradicionais portuguesas como a Galega. Já a tuberculose, provocada pela bactéria Pseudomonas savastanoi pv. savastanoi (Pss), compromete a qualidade do azeite, e os métodos de controlo atuais, à base de cobre, são ineficazes e prejudiciais ao ambiente.

Foto da esquerda: Olival, cultura agrícola em foco no projeto ValorCannBio; Foto do centro: Azeitona infetada com o fungo Colletotrichum, causador da gafa, uma das mais importantes doenças do olival; Foto da direita: Oliveira infetada com a bactéria Pseudomonas savastanoi, causadora da tuberculose, uma das mais importantes doenças do olival.

A Canábis: Uma Nova Esperança para o Olival

Numa reviravolta promissora, a produção de canábis medicinal (com o nome científico Cannabis sativa) floresce em Portugal, incluindo no Alentejo, com o país a caminho de se tornar um dos maiores produtores mundiais. No entanto, a flor, rica em compostos valiosos como THC e CBD, é a única parte da planta aproveitada, enquanto a biomassa restante tem legalmente de ser incinerada, um processo com custos económicos e ambientais elevados.

E se essa biomassa, com os seus mais de 500 compostos químicos, alguns deles com demonstradas propriedades antibacterianas e antifúngicas já conhecidas e outras ainda por desvendar, pudesse ser transformada numa solução para os desafios do olival? É aqui que entra o projeto ValorCannBio: Valorização de subprodutos da canábis medicinal como biopesticida para o olival, um farol de inovação e sustentabilidade.

ValorCannBio: Ciência e Sustentabilidade em Ação

Liderado pelo InPP, em parceria com o Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV requimte) da NOVA FCT e as empresas GreenBePharma (GBP) e AGR Global, o ValorCannBio está a transformar a biomassa excedente da canábis medicinal em biopesticidas eficazes e sustentáveis contra a Gafa e a Tuberculose.

É a primeira vez que o InPP se junta a projetos relacionados com a inovação e sustentabilidade da indústria da produção de canábis e quer ter um papel decisivo na cadeia de valor. “A nossa equipa de investigadores está a desenvolver biofungicidas e biobactericidas sustentáveis, utilizando novos métodos de extração com solventes amigos do ambiente. Estamos a criar soluções que aumentam a eficiência e a sustentabilidade desta indústria”, afirma Tatiana Gil, investigadora do InPP, envolvida no projeto.

Mas, a equipa de investigadores não se fica por aqui. “Estamos ainda a desvendar os segredos das bactérias endofíticas da canábis, microrganismos que vivem em simbiose com a planta, como agentes de controlo biológico”, acrescenta.

E como se transforma uma folha de canábis num escudo para o olival? Tatiana Gil explica o processo, passo a passo: “Primeiro, testamos a eficácia dos extratos em laboratório, como detetives à procura de pistas. Depois, formulamos o biopesticida e avaliamos o seu impacto em estufa, num ambiente controlado. Finalmente, levamos a solução para o campo, para o teste final”.

Tatiana Gil, investigadora do InnovPlantProtect, analisa amostras de extratos da folha de canábis no âmbito do projeto ValorCannBio

Um Impacto que se estende pelo Território

Cristina Azevedo, investigadora do InPP e líder do projeto, antecipa o impacto do ValorCannBio: “Todos estes impactos serão sentidos no concelho de Elvas, onde o projeto se vai desenvolver, mas é expectável que estes se alarguem a toda a região de produção do olival de Trás-os-Montes ao Algarve, onde estão a aumentar as quebras de produção devido à gafa e à tuberculose, e eventualmente aos países do Mediterrâneo onde estas doenças são igualmente prevalentes”.

O ValorCannBio não só pretende oferecer uma alternativa sustentável aos pesticidas químicos, como também abre um novo caminho para a valorização da biomassa remanescente da planta de canábis que não é usada para fins medicinais, transformando-a em um resíduo num recurso valioso.

“Queremos criar uma indústria paralela e complementar à produção de canábis medicinal, envolvendo a produção de biopesticidas”, revela Cristina Azevedo, “que abra caminho para outras inovações”, adianta.

Um Futuro Sustentável para o Olival

O projeto ValorCannBio é um exemplo de como a inovação e a sustentabilidade podem caminhar lado a lado, oferecendo soluções para os desafios da agricultura moderna. Ao aproveitar o potencial da canábis medicinal, o ValorCannBio está a contribuir para a construção de um futuro mais verde e próspero para o olival e para o planeta.

Com o apoio da Fundação “la Caixa”, em parceria com o Banco BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), o ValorCannBio, iniciado em outubro de 2024, promete ser uma história de sucesso até novembro de 2027.

Projeto de Ciência Cidadã no Alentejo: Ajude os investigadores a detetar a praga que preocupa os agricultores

Até ao final da primavera, a equipa do projeto Sistema Nacional de Monitorização de Insetos Vetores da Xylella fastidiosa (SNM_XylellaVt), financiado pelo PRR, desafia os cidadãos a estarem atentos às espumas das plantas: ao detetar espumas nas plantas, registar os dados na app e preencher o formulário online, ajuda-os a criar um mapa atualizado da distribuição temporal e espacial do aparecimento da fase juvenil de 4 espécies de cigarrinhas, existentes em Portugal, que, uma vez adultas, são responsáveis por transportar a bactéria de quarentena Xylella fastidiosa de uma planta para outra.

Em Portugal já foi detetada a presença da bactéria Xylella fastidiosa em quatro espécies de cigarrinhas em território continental, mas pouco se sabe sobre a distribuição temporal e espacial atual destes insetos no nosso país. É com esse objetivo que a equipa do projeto SNM_XylellaVt, desafia os cidadãos a estarem atentos às espumas, localizadas principalmente nos caules das plantas, no seu dia-a-dia, em férias em Portugal, ou quando passeiam em espaços naturais, olivais, vinhas, pastagens, pomares ou no montado. As espumas são sinais da presença destas espécies de insetos vetores de transmissão da bactéria Xylella fastidiosa.

Fotos da esquerda e do centro: Exemplos de espumas presentes nas plantas; Foto da direita: cigarrinha das espumas, inseto vetor de transmissão da bactéria Xylella fastidiosa

“Com a ajuda de todos os cidadãos vamos poder compreender a dinâmica populacional dos insetos vetores e a sua relação com as plantas, o que poderá ajudar a planear medidas de combate à Xylella fastidiosa, prevenindo a disseminação desta bactéria. Isto é muito relevante, tendo em conta que não temos um tratamento curativo direto para esta bactéria, o que torna o seu controlo extremamente difícil”, explica Ilaria Marengo, parceira do projeto SNM_XylellaVt e investigadora do InPP. “A destruição de plantas infetadas e o controlo de insetos vetores, são, de momento, as principais medidas para prevenir a disseminação da bactéria”, acrescenta.

Todos podem contribuir para a campanha “Ajude-nos a salvar as suas plantas!” que está em marcha: basta que, ao avistar as espumas de cigarrinhas, tire fotografias às espumas, localizadas nos caules das plantas, e à planta onde as encontrou, registe os dados na aplicação ODK Collect 2024 disponível para o seu telemóvel (veja imagem abaixo), registe a data e a localização geográfica – se possível com as coordenadas GPS – ou em alternativa, submeta estes dados usando um formulário online na plataforma do projeto. Depois de submeter os seus dados, vai poder visualizá-los no mapa disponível aqui.

Etapas de como instalar e usar a aplicação ODK Collect 2024 no telemóvel ou tablet. Para instalar, aceda ao guia disponibilizado na página da DGAV aqui.

A campanha “Ajude-nos a salvar as suas plantas!” está a ser desenvolvida no âmbito do projeto SNM_XylellaVt, atualmente em curso. O SNM_XylellaVt, liderado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR CENTRO), e do qual o InPP é parceiro, pretende conter a doença às áreas identificadas até agora e travar a dispersão desta doença pelo resto do território português. Para isso, está a criar uma rede para a monitorização da X. fastidiosa e do(s) seu(s) inseto(s) vetor(es), em particular as cigarrinhas das espumas, com o nome científico Philaenus spumarius, Philaenus tesselatus, Neophilaenus lineatus e Cicadella viridis, permitindo o desenvolvimento de novas ferramentas, como os modelos de previsão de risco que permitam ao Serviço Nacional de Avisos Agrícolas (SNAA) alertar, em tempo real, sobre os níveis económicos de ataque (NEA) para estes insetos, e prevenir a propagação da infeção a culturas relevantes para a agricultura nacional.

Em 2019, a bactéria Xylella fastidiosa foi detetada pela primeira vez em Portugal, na área metropolitana do Porto, tendo vindo a ser detetada, desde então, noutras zonas de Portugal Continental. Esta bactéria ataca uma ampla gama de plantas, constituindo um risco para as culturas agrícolas e florestais com importância económica relevante.

Para mais informações sobre a bactéria Xylella fastidiosa aceda à página da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) aqui.