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Árvores maiores, mais bolotas, mas também maior vulnerabilidade?

Um estudo do InnovPlantProtect revela uma relação complexa entre a dimensão das árvores, o seu estado sanitário e a produção de bolotas — com implicações para a monitorização e gestão dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos. 

À partida, uma árvore maior parece ser uma boa notícia. 

Uma árvore mais desenvolvida pode ter um papel importante na regeneração natural dos ecossistemas, através da produção de bolotas. Mas será que ser maior significa também uma maior capacidade para resistir ao declínio?

Os resultados de um novo estudo sugerem que a resposta não é assim tão simples. 

Investigadores do InnovPlantProtect e de outras instituições portuguesas e espanholas analisaram a saúde e a reprodução de carvalhos mediterrânicos, procurando compreender de que forma o tamanho das árvores e o seu estado sanitário se relacionam com a capacidade de produzir bolotas.

Nem todas as árvores estão igualmente expostas 

Os carvalhos mediterrânicos, como o sobreiro, a azinheira e o carvalho-negral, desempenham um papel importante nos ecossistemas de montado e dehesa da Península Ibérica. Estes sistemas enfrentam, contudo, diferentes pressões ambientais, que podem comprometer a saúde e a capacidade de regeneração das árvores. 

Para compreender melhor quais os fatores associados ao declínio e à maior vulnerabilidade das árvores, a equipa analisou dados de monitorização recolhidos em oito locais de Portugal e Espanha, abrangendo cerca de 350 hectares e mais de 2.000 árvores. 

Os resultados mostram que os sinais associados à presença de agentes bióticos estão entre os fatores mais fortemente relacionados com a desfoliação. A presença de ramos mortos, de insetos conhecidos como capricórnios, da família Cerambycidae, e de podridão do tronco esteve associada a níveis mais elevados de perda de folhagem. 

Mas a dimensão das árvores também revelou uma relação importante com o seu estado sanitário. Árvores com maior diâmetro do tronco apresentaram maior probabilidade de níveis elevados de desfoliação.

Ou seja, a dimensão de uma árvore pode dizer-nos mais sobre a sua condição do que simplesmente o seu tamanho. 

Mas há um outro lado da história. 

Se as árvores de maior dimensão podem apresentar maior vulnerabilidade, será que essa dimensão traz também alguma vantagem? 

A resposta está na reprodução. 

A análise da produção de bolotas revelou uma relação positiva entre a altura das árvores e a sua capacidade de produção: árvores mais altas tendem a produzir mais bolotas. 

Mas, mais uma vez, a história muda quando olhamos para o estado sanitário. 

No caso do sobreiro, as árvores localizadas em zonas com pior estado sanitário produziram significativamente menos bolotas. Na azinheira, apesar da elevada variabilidade observada, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na produção entre árvores localizadas em condições sanitárias favoráveis e desfavoráveis. 

Os resultados mostram, assim, que crescer, manter a saúde e reproduzir não são processos independentes. A relação entre estas dimensões varia entre espécies e pode depender das condições a que as árvores estão sujeitas. 

“Frequentemente, presume-se que árvores maiores e mais velhas sejam um indicador de um montado saudável e resiliente. No entanto, o nosso estudo revela que o porte da árvore é, na verdade, uma faca de dois gumes. Embora as árvores de grande porte tenham capacidade para produzir um maior número de bolotas, o seu tamanho também pode estar associado a uma maior vulnerabilidade a determinados fatores bióticos, como é o caso das pragas, como os capricórnios (Cerambyx spp.), uma vez que o volume do tronco é maior, conferindo mais alimento e mais espaço para essa praga se desenvolver.”, explica Maysa Toledo, estudante de doutoramento do InnovPlantProtect.

“A presença de pragas danifica severamente as copas e levam espécies como o sobreiro a interromper a reprodução, para reservar energia para a própria sobrevivência.”, acrescenta.

O que muda na forma como devemos olhar para uma árvore? 

Uma árvore de maior dimensão pode representar um recurso importante para a regeneração, devido ao seu maior potencial de produção de bolotas. Ao mesmo tempo, algumas das características associadas a árvores maiores e mais maduras podem estar relacionadas com uma maior vulnerabilidade a determinados agentes bióticos e ao declínio. 

Proteger árvores com elevado potencial reprodutivo pode, por isso, significar também dar particular atenção ao seu estado sanitário.

A monitorização assume aqui um papel fundamental. A identificação atempada de sinais associados ao declínio pode contribuir para acompanhar de forma mais direcionada as árvores com maior valor estrutural e reprodutivo e apoiar decisões de gestão mais informadas. 

No entanto, os investigadores alertam também para uma questão importante: produzir mais bolotas não significa necessariamente garantir a regeneração do ecossistema. 

A sobrevivência e o estabelecimento de novas árvores dependem de outros fatores, incluindo a disponibilidade de água, a predação, o pastoreio, as características do solo e as condições microclimáticas. 

Para os responsáveis por estes ecossistemas, como explica Maysa Toledo, “a lição fundamental é que não podemos depender apenas da elevada produção de sementes. Para garantir a próxima geração de carvalhos, é importante proteger ativamente as árvores mais antigas contra fatores de stress biótico e, simultaneamente, preservar as condições necessárias à sobrevivência e ao crescimento das bolotas”.

Monitorizar hoje para compreender amanhã 

Mais do que identificar uma única causa para o declínio, este trabalho mostra a importância de compreender o ecossistema como um sistema interligado, onde a dimensão das árvores, a sua saúde e a capacidade reprodutiva podem estar simultaneamente relacionadas.

Neste contexto, os autores defendem a importância de perceber como estas relações evoluem ao longo do tempo, através de uma monitorização plurianual, capaz de acompanhar a evolução do estado sanitário e da reprodução das árvores e de aprofundar o conhecimento sobre a interação entre fatores ambientais e bióticos.

Esta perspetiva pode contribuir para estratégias de gestão e conservação florestal mais direcionadas, ajudando a identificar e proteger árvores particularmente relevantes para a manutenção e regeneração dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos.

Artigo científico

Título: Drivers of tree health and reproduction in mediterranean oaks: Trade-offs between tree size, biotic stress, and acorn production

Revista: Forest Ecology and Management, Volume 620, 2026, 124166

Autores: Maysa Hernandes Ricardo Toledo, Ilaria Marengo, Neftalí Sillero, Nuno Faria e Mario Campos Cunha

DOI: 10.1016/j.foreco.2026.124166

O estudo foi desenvolvido com base em dados de iniciativas de monitorização de ecossistemas de carvalhos mediterrânicos em Portugal e Espanha, incluindo o projeto MoniTREEng – Monitorização da saúde, produtividade e regeneração natural dos Quercus sp. e o projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em montado/dehesa”, financiado pela Fundação “la Caixa”, em colaboração com o Banco BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

InPP participa no Dia de Campo InovMilho’26 com intervenção sobre o vírus do nanismo no milho

A participação do investigador Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, centrou-se nos desafios associados ao vírus do nanismo e no trabalho desenvolvido pelo InPP para compreender a sua ocorrência, acompanhar os seus vetores e contribuir para estratégias de proteção mais eficazes.

O InnovPlantProtect (InPP) esteve presente no Dia de Campo InovMilho’26, organizado pela ANPROMIS, que decorreu no passado dia 2 de setembro, na Estação Experimental António Teixeira (INIAV), em Coruche.

O investigador do InPP Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, participou como orador na sessão “Produção de milho em Portugal: que condicionantes e oportunidades se nos colocam?”, com uma intervenção dedicada ao tema “Vírus do nanismo: como minimizar os seus impactos?”.

Compreender a ocorrência do vírus no território

A ocorrência e dispersão de agentes causadores de doenças na cultura do milho constituem um dos desafios que o InPP procura compreender através da monitorização e análise das populações presentes no território nacional.

Neste âmbito, a equipa está a estudar a prevalência do vírus do nanismo nas populações de milho, acompanhando a sua ocorrência numa área que se estende desde a região de Coimbra até ao Alentejo.

Este trabalho permite recolher informação sobre a distribuição do vírus e contribuir para um conhecimento mais aprofundado da sua presença na cultura do milho em diferentes regiões.

Monitorizar os vetores para antecipar a dispersão

Para além da presença do vírus, a investigação do InPP incide também sobre as dinâmicas populacionais dos seus vetores.

O acompanhamento destas populações ao longo dos anos permitirá identificar tendências e padrões na sua ocorrência. A informação obtida poderá, posteriormente, contribuir para o desenvolvimento de modelos preditivos capazes de apoiar a compreensão da dispersão do vírus no território.

A possibilidade de antecipar onde e quando poderão surgir condições favoráveis à disseminação do vírus poderá contribuir para uma abordagem mais preventiva à proteção da cultura.

Identificar variedades menos suscetíveis

Paralelamente, a equipa do InPP está interessada em identificar variedades de milho menos suscetíveis ao vírus, procurando compreender quais poderão apresentar menor impacto perante a sua presença.

A identificação de materiais vegetais com menor suscetibilidade poderá constituir uma componente importante de futuras estratégias de proteção, complementando outras medidas de monitorização e gestão.

O trabalho desenvolvido pelo InPP nesta área procura, assim, conjugar monitorização, conhecimento epidemiológico e identificação de soluções que possam contribuir para uma gestão mais eficaz dos problemas fitossanitários na cultura do milho.

Um espaço de encontro entre ciência e setor produtivo

O Dia de Campo InovMilho’26 reuniu cerca de 260 participantes de todo o país, proporcionando um espaço de encontro e partilha entre a comunidade científica e académica, o setor produtivo e as empresas ligadas à fileira do milho.

Ao longo da iniciativa foram apresentadas técnicas, tecnologias e trabalhos de investigação relacionados com os desafios e oportunidades da cultura do milho em Portugal, promovendo a transferência de conhecimento e a criação de sinergias entre diferentes intervenientes do setor.

A participação do InPP nesta iniciativa permitiu dar a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido na área da monitorização inteligente de pragas e doenças, reforçando a importância da investigação aplicada para responder aos desafios fitossanitários que se colocam à agricultura nacional.

O InPP agradece à sua associada ANPROMIS o convite para participar no Dia de Campo InovMilho’26 e a oportunidade de partilhar o trabalho desenvolvido nesta área.

Veja o vídeo institucional do Dia de Campo InovMilho’26, disponibilizado pela ANPROMIS aqui.

Investigadores do InPP partilham conhecimento sobre o futuro da proteção de plantas em Summer School internacional

Dois investigadores do InnovPlantProtect participaram como oradores na International Summer School 2026, em Berlim, onde apresentaram diferentes perspetivas sobre o desenvolvimento de biossoluções e formulações para uma proteção das culturas mais segura e sustentável.

Os investigadorees do InnovPlantProtect (InPP), Tiago Amaro e Alexandra Machado, participaram, enquanto oradores, na International Summer School 2026 – “Soft Multiphase Materials for Next Generation Bio-pesticides: From Lab to Field”, que decorreu em Berlim, no âmbito da rede doutoral europeia BIOMAC-BP.

Realizada no Seminaris CampusHotel Berlin, a iniciativa reuniu investigadores e especialistas de diferentes áreas em torno do desenvolvimento de novas soluções para a proteção das culturas, promovendo a partilha de conhecimento e a colaboração entre diferentes disciplinas científicas.

Duas perspetivas sobre o futuro da proteção das culturas

Durante a manhã de 18 de setembro, Tiago Amaro, investigador da subárea de Proteção de Plantas do InPP, apresentou a sessão “Beyond Synthetic Pesticides: Next-Generation Biosolutions for Crop Protection”.

A apresentação abordou o potencial das biossoluções de nova geração enquanto alternativas aos pesticidas sintéticos, refletindo sobre novas abordagens para responder aos desafios atuais da proteção das culturas.

Também Alexandra Machado, investigadora da subárea de Agroformulações, participou como oradora, com a apresentação “Great Bioactives are Worthless Without Great Formulations”.

A intervenção destacou a importância das formulações no desenvolvimento de soluções baseadas em compostos bioativos. Para que um bioativo promissor possa traduzir-se numa solução eficaz e com potencial de aplicação no campo, a formulação desempenha um papel determinante, contribuindo para o seu desempenho, estabilidade e aplicabilidade.

As duas intervenções evidenciaram, assim, a complementaridade entre diferentes áreas de investigação e diferentes etapas no desenvolvimento de soluções para a proteção das culturas: desde a identificação e desenvolvimento de novas biossoluções até à sua formulação para uma aplicação eficaz.

Ciência que se partilha além-fronteiras

A participação de Tiago Amaro e Alexandra Machado enquanto oradores nesta Summer School internacional permitiu ao InPP reforçar a sua presença em redes científicas europeias e contribuir para a discussão em torno do futuro da proteção de plantas.

Mais do que uma oportunidade de partilha de conhecimento, estes momentos permitem criar novas ligações, promover a colaboração científica e aproximar diferentes áreas de investigação, contribuindo para o desenvolvimento de soluções mais seguras, eficazes e sustentáveis para a agricultura.

É também através da circulação do conhecimento — entre investigadores, instituições e áreas científicas — que a investigação pode continuar a transformar-se em inovação com aplicação no campo.

Inovar juntos. Proteger melhor.

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EVENTOS

Câmara walk-in amplia capacidade de resposta da investigação

O InnovPlantProtect (InPP) já tem uma câmara walk-in com controlo de temperatura, humidade e exposição à luz com fotoperíodo, para cultivar plantas no âmbito dos seus projetos.

O Departamento de Proteção de Culturas Específicas está a usar este novo equipamento desde 10 de maio, designadamente para cultivar trevo-da-pérsia e trigo, para os projetos PitSTOP, com a Fertiprado, e WhYRust, respetivamente.

A câmara climática walk-in permitirá a realização de experiências em condições controladas, em diferentes culturas, durante todo o ano. “Juntamente com a reforma da estufa, este ambiente de crescimento de plantas é muito importante para ampliar a nossa capacidade de resposta”, explica Paula Oblessuc, diretora daquele departamento.

“A câmara climática walk-in permite a realização de experiências em condições controladas durante todo o ano.“

Ou seja, os investigadores do InPP poderão realizar experiências mais detalhadas e trabalhar num maior número de projetos em simultâneo, com uma câmara que “está a manter muito bem as condições estabelecidas”, sublinha Paula Oblessuc. O projeto PitSTOP visa identificar o(s) agente(s) patogénico(s) que está/ão a atacar os prados de trevo-da-pérsia da Fertiprado e propor uma solução de combate à(s) doença(s).

O WhYRust pretende combater a ferrugem amarela do trigo, em particular identificando genes de resistência no cereal, validando um sistema de alerta e desenvolvendo modelos de predição genómica para apoio ao melhoramento de precisão.

“O InPP representa a aposta da NOVA na agricultura sustentável”

O Reitor da Universidade NOVA de Lisboa não sabe se o carinho especial que sente pelos agricultores advém da sua “costela alentejana” e da infância ligada à terra, mas sabe que os agricultores têm um papel crucial na construção de um mundo mais sustentável. Por isso, é com entusiasmo que João Sàágua fala do InnovPlantProtect, um laboratório colaborativo liderado pela NOVA, como um aliado da sustentabilidade na produção agrícola, criado para desenvolver soluções inovadoras para proteger as culturas de pragas e doenças.

Veja o vídeo no nosso canal no YouTube

Texto: Margarida Paredes/ InPP
Fotos e vídeo: Universidade NOVA de Lisboa


A Universidade NOVA de Lisboa (NOVA) é a instituição que mais se empenhou na criação do Laboratório Colaborativo (CoLab) InnovPlantProtect (InPP). Porque é que este projeto é tão importante para a NOVA?
Essencialmente por duas razões. Apesar de ter um ensino e uma investigação de excelência, a Universidade NOVA tem ainda muita margem de crescimento em termos de transferência de conhecimento ou, se quiser, de ligação à sociedade. Aliás, um dos pontos fortes da minha candidatura para Reitor da NOVA era o desejo de aumentar a ligação desta Universidade à sociedade, de uma maneira visível e concreta, e o InnovPlantProtect é um exemplo disso.

A outra razão prende-se com o próprio tema: a agricultura. A sustentabilidade da agricultura e o garante dessa sustentabilidade com base em conhecimento e em tecnologia são fundamentais para o desenvolvimento do país, em particular, mas também para alcançar os tão importantes ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Digamos que o InPP representa bem a aposta da NOVA na agricultura sustentável. Devo acrescentar que também o entusiasmo com que o presidente da Câmara Municipal de Elvas, Nuno Mocinha, nos recebeu e apoiou o projeto desde o início redobrou a nossa vontade de realizar este projeto e de o fazer em Elvas.

Este CoLab é “a menina dos seus olhos”? Pergunto porque a NOVA, apesar de integrar onze Laboratórios Colaborativos, liderou apenas dois projetos, entre os quais este.
É verdade, lideramos dois CoLab – este e um outro na área da saúde – e participamos em mais nove, mas o InPP reúne, de facto, todas as condições para ser a “menina dos meus olhos”. Em primeiro lugar, por causa da área de atuação. Contribuir para tornar sustentável a dieta mediterrânica é, para nós, muito importante, porque sabemos que, com isso, estamos a apoiar também o desenvolvimento do país. Em segundo lugar, sendo filho de uma alentejana, considero crucial a contribuição deste projeto para a coesão territorial.

O InPP foi aprovado pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia com a nota máxima, após avaliação por uma equipa internacional, e o seu trabalho já está em curso. Neste momento, em que consiste o papel da NOVA neste projeto?
A nossa presença no InPP é permanente. É visível no Conselho de Administração, cuja presidência é assumida pela NOVA, e na Direção – o CEO, Professor Pedro Fevereiro, veio do ITQB NOVA, um Instituto da Universidade. Além disso, ao nível da investigação, temos projetos em conjunto e já submetidos para financiamento. Outro aspeto importante é a dupla filiação, o que permite, durante cinco anos, aos investigadores desta Universidade trabalharem também no CoLab.

“Penso que o impacto mais importante do InPP será a criação de valor económico e social.”


Sendo uma entidade que forma investigadores, e dado que este projeto foi liderado pela unidade de investigação GREEN-IT do Instituto de Tecnologia Química e Biológica da NOVA, em cooperação com outras unidades de investigação da NOVA (CTS FCT NOVA, NOVA LINCS, FCT NOVA e MagiC NOVA IMS), existe algum vínculo entre a NOVA e o InPP em termos de contratação de recursos humanos altamente qualificados?
Existe uma colaboração estratégica e um intercâmbio entre investigadores dos dois lados e também uma colaboração intensa de vários professores da NOVA, dos diversos Centros de investigação que referiu, no InPP. Mas o InPP está a contratar o seu próprio corpo de investigadores, sólido e com elevado perfil internacional, que certamente trabalharão também em projetos que envolverão professores e investigadores da NOVA. Quero salientar que considero este aspeto: progressivamente, a comunidade de Elvas vai-se aumentando com pessoas que trabalham no InPP e que fazem a sua vida e têm a sua família em Elvas.

“Dada a natureza particular deste CoLab, a nossa expectativa é que o financiamento venha da sua capacidade de inovar e até de exportar inovação.”


Que desafios se colocam a um CoLab como o InPP, o único nesta área em Portugal?
Apontaria três desafios fundamentais, o primeiro dos quais é a sustentabilidade financeira. O CoLab tem um financiamento significativo da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, teve um forte apoio da autarquia de Elvas, que foi crucial no lançamento deste laboratório, e um apoio relevante dos vários associados. Mas terá de, em cinco anos, gerar riqueza suficiente para garantir a sua própria sustentabilidade financeira.

Dada a natureza particular deste CoLab, a nossa expectativa é que o financiamento venha da sua capacidade de inovar e até de exportar inovação. Se o InPP conseguir desenvolver produtos (como biopesticidas e plantas resistentes a pragas e doenças) e serviços (como previsão e monitorização de pragas e doenças, entre outros), com qualidade e importância suficientes, pode não só garantir a sua sustentabilidade através da venda desses produtos e serviços como também aumentar a capacidade exportadora de Portugal na área do conhecimento em agricultura sustentável.

Um outro desafio, que penso já estar ganho, é a atração de recursos humanos altamente qualificados. Não sendo Elvas uma grande metrópole, poderia ser difícil atrair para a cidade uma comunidade científica internacional e respetivas famílias, mas acabou por não ser.

“O InPP reúne, de facto, todas as condições para ser a ‘menina dos meus olhos’”.

Em termos de conhecimento fundamental, tem-se financiado muita ciência e avançado muito em tecnologias e ferramentas de base molecular, mas a aplicação ainda é residual. Acredita que o InPP vai reduzir esta lacuna?
Acredito que sim. Uma das formas de reduzir essa lacuna prende-se justamente com um dos grandes desafios dos Laboratórios Colaborativos, que é incrementar a atividade exportadora e a venda de produtos e serviços. Em boa hora o Governo lançou esta iniciativa, aspeto que é mais que justo referir.

Penso que o InPP começou bem nesse aspeto, ao ter como associados-fundadores duas empresas multinacionais – a Bayer e a Syngenta –, para as quais este projeto não é meramente comercial, envolve recursos e conhecimento. Por essa razão, a sua integração neste projeto teve de ser autorizada pelas respetivas empresas-mãe na Alemanha, o que revela o grande empenho destas multinacionais no InPP. Para além disso, contamos também com um impressionante conjunto de agricultores da região, que são nesta área as verdadeiras forças vivas do território, e que estão representados nos Órgãos Sociais do InPP através das suas associações.

O InPP trabalha na proteção de culturas mediterrânicas, mas as empresas multinacionais investem mais em milho, colza, algodão e soja, porque são as culturas que se vendem mais no mundo. Não teme a falta de investimento por parte das empresas?
Sinceramente, não. As culturas mediterrânicas são um nicho cada vez mais valorizado, desde logo o azeite, cuja procura está a aumentar significativamente, mas também a fruta, os legumes e os cereais. A dieta mediterrânica afirma-se como uma dieta saudável, criou para si própria uma importância cimeira graças à preocupação generalizada da população com a alimentação, aos problemas da obesidade e da má nutrição, o que resulta muito do conhecimento da ligação que existe entre alimentação, saúde e bem-estar. Não tenho dúvida nenhuma de que os produtos da dieta mediterrânica vão estar em franca expansão na Europa, nos Estados Unidos e em outros territórios. De novo: boa oportunidade de exportação.

“As culturas mediterrânicas são um nicho cada vez mais valorizado, desde logo o azeite, cuja procura está a aumentar significativamente, mas também a fruta, os legumes e os cereais.”


A legislação atual da União Europeia não favorece o uso das Novas Técnicas Genómicas nas culturas mediterrânicas. Se a UE não estiver preparada para aceitar soluções inovadoras, como as que o InPP está a tentar desenvolver, por exemplo plantas resistentes a pragas e doenças, qual será a alternativa?
Essa é uma das linhas de atividade do InPP, mas não é a única. A União Europeia ainda não tomou uma posição definitiva sobre essa matéria, mas, se a parte de melhoramento especificamente associado às plantas confrontar-se com as dificuldades que referiu, a alternativa é escoar os produtos em muitos outros mercados possíveis fora da UE. Acresce que as técnicas genómicas não são todas iguais, nem respondem todas às mesmas motivações; no caso do InPP, a sustentabilidade e o respeito pelo ambiente são, também aqui, o lema. Em todo o caso, como disse, temos outras linhas de atividade, “os ovos não estão todos nesse cesto”.

Qual vai ser, na sua opinião, o impacto mais importante do InPP?
Penso que será a criação de valor económico e social. O InnovPlantProtect terá um impacto muito importante em Elvas, porque estando a construir uma nova comunidade de investigadores nacionais e estrangeiros vai contribuir para a coesão e desenvolvimento territorial e para o tecido socioeconómico da cidade – ouvi dizer que já há dificuldade em encontrar casas para habitação vagas.

O segundo impacto será visível na atividade agrícola, na medida em que o InPP vai desenvolver produtos e serviços para proteção das culturas, e o terceiro será na exportação, uma vez que, disponibilizados esses produtos e serviços, serão colocados também em mercados externos.

“Dada a natureza particular deste CoLab, a nossa expectativa é que o financiamento venha da sua capacidade de inovar e até de exportar inovação.”

JOÃO SÀÁGUA

Reitor da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA) desde setembro de 2017, exerceu antes o cargo de Vice-Reitor da NOVA para as áreas Académica e Relações Internacionais (entre 2014 e 2017). É Doutor em Filosofia Contemporânea e Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da NOVA (FCSH/NOVA). Leciona na NOVA desde 1980, acumulando uma longa experiência como docente em todos os níveis de ensino: licenciatura, mestrado e doutoramento, em Portugal e no estrangeiro. Para além de uma atividade intensiva de ensino e investigação, exerceu diversos cargos de gestão, nomeadamente na FCSH/NOVA, onde foi Diretor (entre 2005 e 2013) e Presidente do Conselho Científico (entre 2009 e 2013).

Entrevista publicada em primeira mão pela Vida Rural, edição março 2021.

“Estamos a ajustar as culturas de que nos alimentamos às necessidades da sociedade global”

“Sinto-me bastante mais confortável a discutir estas questões hoje em Portugal do que há dez anos”, afirmou hoje, 26 de maio, o diretor executivo do InnovPlantProtect (InPP). A questão em cima da mesa era: “São as novas técnicas genómicas (NTG) uma das ferramentas para atingir as metas da Estratégia do Prado ao Prato?”. Para Pedro Fevereiro, que falava numa das sessões do “workshop de soluções” intitulado “NTG – ferramenta sustentável para enfrentar as alterações climáticas”, organizado pelo Forum for the Future of Agriculture (FFA), existem três tipos de públicos no que toca à perceção sobre as NTG.

Uma parte da sociedade “associa estas tecnologias a um maior impacto na diversidade e nos ecossistemas, e reage quase emotivamente à aplicação das NTG”, defende Fevereiro. Depois, “existe algum público que tem dificuldade em entendê-las e associam-nas à perda da componente tradicional das suas produções.” Há ainda, no seu entender, um outro público, que, uma vez esclarecido sobre as novas técnicas de melhoramento de plantas “tende a comprender que não são mais do um processo natural, em que estamos a ajustar as culturas de que nos alimentamos às necessidades que temos como sociedade global”.

A sessão foi moderada por Cristina Nobre Soares e partilhada com o membro do Parlamento Europeu Álvaro Amaro, o agrónomo Manuel Chaveiro Soares, Rui Barreiras, da Associação Natureza Portugal/ WWF e o orador principal Andreas Weber, diretor do Instituto de Bioquímica Vegetal da[RF1]  Universidade Heinrich Heine, na Alemanha.

Pedro Fevereiro mostrou-se convicto de que “vamos conseguir desenvolver novas tecnologias, baseadas nos conhecimentos que estão a ser acumulados, e que vão possibilitar-nos responder de forma mais eficiente aos desafios que temos pela frente” – como o de alimentar a população e garantir que as produções suportam os impactos climáticos, já presentes nos territórios mediterrânicos.

Assista ao debate na íntegra.