Um estudo do InnovPlantProtect revela uma relação complexa entre a dimensão das árvores, o seu estado sanitário e a produção de bolotas — com implicações para a monitorização e gestão dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos.
À partida, uma árvore maior parece ser uma boa notícia.
Uma árvore mais desenvolvida pode ter um papel importante na regeneração natural dos ecossistemas, através da produção de bolotas. Mas será que ser maior significa também uma maior capacidade para resistir ao declínio?
Os resultados de um novo estudo sugerem que a resposta não é assim tão simples.
Investigadores do InnovPlantProtect e de outras instituições portuguesas e espanholas analisaram a saúde e a reprodução de carvalhos mediterrânicos, procurando compreender de que forma o tamanho das árvores e o seu estado sanitário se relacionam com a capacidade de produzir bolotas.
Nem todas as árvores estão igualmente expostas
Os carvalhos mediterrânicos, como o sobreiro, a azinheira e o carvalho-negral, desempenham um papel importante nos ecossistemas de montado e dehesa da Península Ibérica. Estes sistemas enfrentam, contudo, diferentes pressões ambientais, que podem comprometer a saúde e a capacidade de regeneração das árvores.
Para compreender melhor quais os fatores associados ao declínio e à maior vulnerabilidade das árvores, a equipa analisou dados de monitorização recolhidos em oito locais de Portugal e Espanha, abrangendo cerca de 350 hectares e mais de 2.000 árvores.
Os resultados mostram que os sinais associados à presença de agentes bióticos estão entre os fatores mais fortemente relacionados com a desfoliação. A presença de ramos mortos, de insetos conhecidos como capricórnios, da família Cerambycidae, e de podridão do tronco esteve associada a níveis mais elevados de perda de folhagem.
Mas a dimensão das árvores também revelou uma relação importante com o seu estado sanitário. Árvores com maior diâmetro do tronco apresentaram maior probabilidade de níveis elevados de desfoliação.
Ou seja, a dimensão de uma árvore pode dizer-nos mais sobre a sua condição do que simplesmente o seu tamanho.
Mas há um outro lado da história.
Se as árvores de maior dimensão podem apresentar maior vulnerabilidade, será que essa dimensão traz também alguma vantagem?
A resposta está na reprodução.
A análise da produção de bolotas revelou uma relação positiva entre a altura das árvores e a sua capacidade de produção: árvores mais altas tendem a produzir mais bolotas.
Mas, mais uma vez, a história muda quando olhamos para o estado sanitário.
No caso do sobreiro, as árvores localizadas em zonas com pior estado sanitário produziram significativamente menos bolotas. Na azinheira, apesar da elevada variabilidade observada, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na produção entre árvores localizadas em condições sanitárias favoráveis e desfavoráveis.
Os resultados mostram, assim, que crescer, manter a saúde e reproduzir não são processos independentes. A relação entre estas dimensões varia entre espécies e pode depender das condições a que as árvores estão sujeitas.
“Frequentemente, presume-se que árvores maiores e mais velhas sejam um indicador de um montado saudável e resiliente. No entanto, o nosso estudo revela que o porte da árvore é, na verdade, uma faca de dois gumes. Embora as árvores de grande porte tenham capacidade para produzir um maior número de bolotas, o seu tamanho também pode estar associado a uma maior vulnerabilidade a determinados fatores bióticos, como é o caso das pragas, como os capricórnios (Cerambyx spp.), uma vez que o volume do tronco é maior, conferindo mais alimento e mais espaço para essa praga se desenvolver.”, explica Maysa Toledo, estudante de doutoramento do InnovPlantProtect.
“A presença de pragas danifica severamente as copas e levam espécies como o sobreiro a interromper a reprodução, para reservar energia para a própria sobrevivência.”, acrescenta.
O que muda na forma como devemos olhar para uma árvore?
Uma árvore de maior dimensão pode representar um recurso importante para a regeneração, devido ao seu maior potencial de produção de bolotas. Ao mesmo tempo, algumas das características associadas a árvores maiores e mais maduras podem estar relacionadas com uma maior vulnerabilidade a determinados agentes bióticos e ao declínio.
Proteger árvores com elevado potencial reprodutivo pode, por isso, significar também dar particular atenção ao seu estado sanitário.
A monitorização assume aqui um papel fundamental. A identificação atempada de sinais associados ao declínio pode contribuir para acompanhar de forma mais direcionada as árvores com maior valor estrutural e reprodutivo e apoiar decisões de gestão mais informadas.
No entanto, os investigadores alertam também para uma questão importante: produzir mais bolotas não significa necessariamente garantir a regeneração do ecossistema.
A sobrevivência e o estabelecimento de novas árvores dependem de outros fatores, incluindo a disponibilidade de água, a predação, o pastoreio, as características do solo e as condições microclimáticas.
Para os responsáveis por estes ecossistemas, como explica Maysa Toledo, “a lição fundamental é que não podemos depender apenas da elevada produção de sementes. Para garantir a próxima geração de carvalhos, é importante proteger ativamente as árvores mais antigas contra fatores de stress biótico e, simultaneamente, preservar as condições necessárias à sobrevivência e ao crescimento das bolotas”.
Monitorizar hoje para compreender amanhã
Mais do que identificar uma única causa para o declínio, este trabalho mostra a importância de compreender o ecossistema como um sistema interligado, onde a dimensão das árvores, a sua saúde e a capacidade reprodutiva podem estar simultaneamente relacionadas.
Neste contexto, os autores defendem a importância de perceber como estas relações evoluem ao longo do tempo, através de uma monitorização plurianual, capaz de acompanhar a evolução do estado sanitário e da reprodução das árvores e de aprofundar o conhecimento sobre a interação entre fatores ambientais e bióticos.
Esta perspetiva pode contribuir para estratégias de gestão e conservação florestal mais direcionadas, ajudando a identificar e proteger árvores particularmente relevantes para a manutenção e regeneração dos ecossistemas de carvalhos mediterrânicos.
Artigo científico
Título:Drivers of tree health and reproduction in mediterranean oaks: Trade-offs between tree size, biotic stress, and acorn production
Revista:Forest Ecology and Management, Volume 620, 2026, 124166
Autores: Maysa Hernandes Ricardo Toledo, Ilaria Marengo, Neftalí Sillero, Nuno Faria e Mario Campos Cunha
DOI: 10.1016/j.foreco.2026.124166
O estudo foi desenvolvido com base em dados de iniciativas de monitorização de ecossistemas de carvalhos mediterrânicos em Portugal e Espanha, incluindo o projeto MoniTREEng – Monitorização da saúde, produtividade e regeneração natural dosQuercussp. e o projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce dePhytophthora cinnamomiem montado/dehesa”, financiado pela Fundação “la Caixa”, em colaboração com o Banco BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
A participação do investigador Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, centrou-se nos desafios associados ao vírus do nanismo e no trabalho desenvolvido pelo InPP para compreender a sua ocorrência, acompanhar os seus vetores e contribuir para estratégias de proteção mais eficazes.
O InnovPlantProtect (InPP) esteve presente no Dia de Campo InovMilho’26, organizado pela ANPROMIS, que decorreu no passado dia 2 de setembro, na Estação Experimental António Teixeira (INIAV), em Coruche.
O investigador do InPP Nuno Faria, da subárea de Monitorização Inteligente de Pragas e Doenças, participou como orador na sessão “Produção de milho em Portugal: que condicionantes e oportunidades se nos colocam?”, com uma intervenção dedicada ao tema “Vírus do nanismo: como minimizar os seus impactos?”.
Compreender a ocorrência do vírus no território
A ocorrência e dispersão de agentes causadores de doenças na cultura do milho constituem um dos desafios que o InPP procura compreender através da monitorização e análise das populações presentes no território nacional.
Neste âmbito, a equipa está a estudar a prevalência do vírus do nanismo nas populações de milho, acompanhando a sua ocorrência numa área que se estende desde a região de Coimbra até ao Alentejo.
Este trabalho permite recolher informação sobre a distribuição do vírus e contribuir para um conhecimento mais aprofundado da sua presença na cultura do milho em diferentes regiões.
Monitorizar os vetores para antecipar a dispersão
Para além da presença do vírus, a investigação do InPP incide também sobre as dinâmicas populacionais dos seus vetores.
O acompanhamento destas populações ao longo dos anos permitirá identificar tendências e padrões na sua ocorrência. A informação obtida poderá, posteriormente, contribuir para o desenvolvimento de modelos preditivos capazes de apoiar a compreensão da dispersão do vírus no território.
A possibilidade de antecipar onde e quando poderão surgir condições favoráveis à disseminação do vírus poderá contribuir para uma abordagem mais preventiva à proteção da cultura.
Identificar variedades menos suscetíveis
Paralelamente, a equipa do InPP está interessada em identificar variedades de milho menos suscetíveis ao vírus, procurando compreender quais poderão apresentar menor impacto perante a sua presença.
A identificação de materiais vegetais com menor suscetibilidade poderá constituir uma componente importante de futuras estratégias de proteção, complementando outras medidas de monitorização e gestão.
O trabalho desenvolvido pelo InPP nesta área procura, assim, conjugar monitorização, conhecimento epidemiológico e identificação de soluções que possam contribuir para uma gestão mais eficaz dos problemas fitossanitários na cultura do milho.
Um espaço de encontro entre ciência e setor produtivo
O Dia de Campo InovMilho’26 reuniu cerca de 260 participantes de todo o país, proporcionando um espaço de encontro e partilha entre a comunidade científica e académica, o setor produtivo e as empresas ligadas à fileira do milho.
Ao longo da iniciativa foram apresentadas técnicas, tecnologias e trabalhos de investigação relacionados com os desafios e oportunidades da cultura do milho em Portugal, promovendo a transferência de conhecimento e a criação de sinergias entre diferentes intervenientes do setor.
A participação do InPP nesta iniciativa permitiu dar a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido na área da monitorização inteligente de pragas e doenças, reforçando a importância da investigação aplicada para responder aos desafios fitossanitários que se colocam à agricultura nacional.
O InPP agradece à sua associada ANPROMIS o convite para participar no Dia de Campo InovMilho’26 e a oportunidade de partilhar o trabalho desenvolvido nesta área.
Veja o vídeo institucional do Dia de Campo InovMilho’26, disponibilizado pela ANPROMIS aqui.
Dois investigadores do InnovPlantProtect participaram como oradores na International Summer School 2026, em Berlim, onde apresentaram diferentes perspetivas sobre o desenvolvimento de biossoluções e formulações para uma proteção das culturas mais segura e sustentável.
Os investigadorees do InnovPlantProtect (InPP), Tiago Amaro e Alexandra Machado, participaram, enquanto oradores, na International Summer School 2026 – “Soft Multiphase Materials for Next Generation Bio-pesticides: From Lab to Field”, que decorreu em Berlim, no âmbito da rede doutoral europeia BIOMAC-BP.
Realizada no Seminaris CampusHotel Berlin, a iniciativa reuniu investigadores e especialistas de diferentes áreas em torno do desenvolvimento de novas soluções para a proteção das culturas, promovendo a partilha de conhecimento e a colaboração entre diferentes disciplinas científicas.
Duas perspetivas sobre o futuro da proteção das culturas
Durante a manhã de 18 de setembro, Tiago Amaro, investigador da subárea de Proteção de Plantas do InPP, apresentou a sessão “Beyond Synthetic Pesticides: Next-Generation Biosolutions for Crop Protection”.
A apresentação abordou o potencial das biossoluções de nova geração enquanto alternativas aos pesticidas sintéticos, refletindo sobre novas abordagens para responder aos desafios atuais da proteção das culturas.
Também Alexandra Machado, investigadora da subárea de Agroformulações, participou como oradora, com a apresentação “Great Bioactives are Worthless Without Great Formulations”.
A intervenção destacou a importância das formulações no desenvolvimento de soluções baseadas em compostos bioativos. Para que um bioativo promissor possa traduzir-se numa solução eficaz e com potencial de aplicação no campo, a formulação desempenha um papel determinante, contribuindo para o seu desempenho, estabilidade e aplicabilidade.
As duas intervenções evidenciaram, assim, a complementaridade entre diferentes áreas de investigação e diferentes etapas no desenvolvimento de soluções para a proteção das culturas: desde a identificação e desenvolvimento de novas biossoluções até à sua formulação para uma aplicação eficaz.
Ciência que se partilha além-fronteiras
A participação de Tiago Amaro e Alexandra Machado enquanto oradores nesta Summer School internacional permitiu ao InPP reforçar a sua presença em redes científicas europeias e contribuir para a discussão em torno do futuro da proteção de plantas.
Mais do que uma oportunidade de partilha de conhecimento, estes momentos permitem criar novas ligações, promover a colaboração científica e aproximar diferentes áreas de investigação, contribuindo para o desenvolvimento de soluções mais seguras, eficazes e sustentáveis para a agricultura.
É também através da circulação do conhecimento — entre investigadores, instituições e áreas científicas — que a investigação pode continuar a transformar-se em inovação com aplicação no campo.
O Instituto Politécnico de Portalegre passou a fazer parte do corpo de associados do InnovPlantProtect (InPP), juntando-se assim aos 12 sócios fundadores: Câmara Municipal de Elvas, Universidade NOVA de Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-alimentar do Alentejo (CEBAL), Universidade de Évora, Syngenta Crop Protection, Bayer Crop Science, Fertiprado, Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP), Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo (Anpromis), Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC) e Casa do Arroz.
“A integração no laboratório colaborativo InnovPlantProtect constitui um passo determinante para a afirmação do Politécnico de Portalegre enquanto polo de investigação e atração de investimento para a região do Alentejo, capaz de impulsionar a criação de emprego qualificado e a densificação do Interior do país, reforçando a relevância desta região para o crescimento e desenvolvimento do setor agrícola português”, afirma Luís Loures, presidente do Instituto Politécnico de Portalegre (IPPortalegre).
Numa nota publicada no site do IPPortalegre pode ler-se que esta associação inclusão já era expectável, “considerando a crescente cooperação entre as duas entidades, em particular através da Escola Superior Agrária de Elvas – IPPortalegre”. O IPPortalegre espera agora contribuir para, entre outras mais-valias: aumentar as valências do CoLAB na área das ciências biológicas aplicadas, potenciando a participação em projetos de investigação com linhas de trabalho complementares; potenciar a realização de estágios e outras atividades práticas nas áreas de investigação do InnovPlantProtect por parte dos estudantes do Politécnico; aumentar e diversificar o número de parceiros do laboratório, com intervenção na área agrícola, potenciando assim a capacidade de penetração no tecido económico regional na sua área de atuação.
Com 15 polos espalhados pelo país e um pé em seis laboratórios colaborativos, o presidente do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária vê no InnovPlantProtect, com sede no Polo de Elvas, um braço complementar que reforça a ligação do INIAV à indústria. O grande impacto do CoLAB? Chegará, garante Nuno Canada, quando conseguir colocar no mercado moléculas ou soluções de base biológica para a proteção de plantas e pós-colheita, que resolvam os problemas nacionais mas que possam ser comercializadas à escala global.
Texto: Eva Ceia/ InnovPlantProtect Fotografia: Joaquim Miranda
Qual a importância do laboratório colaborativo InnovPlantProtect (InPP) para o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV)?
O INIAV é uma estrutura de âmbito nacional, que tem 15 polos, ao longo do país, com várias áreas científicas temáticas, e que desenvolve atividade nas áreas da agricultura e alimentação, das florestas e da biodiversidade, e também na área do desenvolvimento do território, em particular dos meios rurais. É a maior estrutura nacional de investigação nestas áreas. O INIAV posiciona-se na interface entre o sistema científico nacional e as empresas, as organizações da produção e o território.
Tem por isso um grande foco na dimensão da transferência de conhecimento e tecnologia. Nessa óptica, vê com muito interesse o aparecimento destes arranjos colaborativos, quer os centros de competências, quer os laboratórios colaborativos, e tem, desde a sua origem, apoiado a constituição destas estruturas. O INIAV apoiou a constituição de 22 centros de competências e de seis laboratórios colaborativos, uma vez que são estruturas que vão reforçar o ecossistema nacional de investigação e inovação, nesta componente de transferência de conhecimento e tecnologia.
Sendo a proteção de plantas uma das áreas centrais de atividade do INIAV, o InnovPlantProtect vem complementar a nossa atividade e reforçar esta componente de ligação às empresas. Daí o grande interesse que tivemos em apoiar e fazer parte deste laboratório colaborativo quando apareceu o programa Interface.
Porque é que o InPP foi instalado no Polo de Elvas do INIAV?
O Polo de Elvas é um dos 15 polos do INIAV. É um dos polos mais relevantes em termos nacionais e tem uma grande relevância regional; nesta área da inovação e da investigação, é a estrutura mais relevante daquela região. Tem uma atividade de forte ligação ao setor, às várias cadeias de valor – aos cereais, às leguminosas, às pastagens. Tem também já uma tradição, para além de trabalhar em estreita articulação com o setor, de criar arranjos colaborativos. Está sediado no Polo de Elvas o Centro Nacional de Competências para as Alterações Climáticas do Sector Agroflorestal, o CEREALTECH nos cereais, e o InPP veio aparecer como mais um complemento à atividade que já está a ser desenvolvida em Elvas.
Sendo um território de baixa densidade populacional e tendo os laboratórios colaborativos [CoLAB] como um dos objetivos centrais a contratação de pessoas altamente qualificadas, é também uma oportunidade de levar estas pessoas para aquela região; e, adicionalmente, houve um grande apoio da Câmara de Elvas em toda esta instalação.
Qual é, além disso, a importância do InPP para a região alentejana?
A importância tem aqui duas dimensões. O facto de estarmos a contratar mais recursos muito qualificados, que trazem as suas famílias para a região, vai criar a fixação de pessoas, direta e indireta, e riqueza na região, que é um aspeto central. A outra dimensão é que, embora a atividade deste CoLAB, sendo um laboratório de interface com a indústria farmacêutica, tenha um impacto global, ter uma atividade de relevância nacional e internacional a ser desenvolvida em Elvas também vai, em termos de notoriedade e de promoção daquela região, ser um aspeto relevante.
Indústria fitofarmacêutica essa que terá de fazer uma transição…
Embora a ideia central deste laboratório colaborativo seja desenvolver moléculas de base biológica para proteção de plantas e para pós-colheita, e outro tipo de soluções alternativas de base biológica, dada a parceria com estas empresas que fazem parte do CoLAB, são identificados os problemas nacionais mais relevantes neste domínio e o objetivo último é desenvolver soluções que interessem à agricultura nacional, mas que tenham capacidade de ser comercializadas à escala global. O mercado nacional é pequeno; estas soluções, por si só, não são sustentáveis se forem só vendidas no mercado nacional. É preciso pensar global e nacional de forma combinada.
Só faz sentido ter o laboratório colaborativo se houver uma estreita articulação com as empresas.
Como vê em concreto a participação das empresas no CoLAB? Acha que a estratégia seguida permite que o InPP desenvolva a sua atividade em conjunto com elas?
O programa Interface criou os CoLAB precisamente para serem estruturas de interface com as empresas – muito orientados para a indústria, em particular. Neste caso concreto do InPP, há dois parceiros âncora industriais, a Bayer e a Syngenta. Só faz sentido ter o laboratório colaborativo se houver uma estreita articulação com as empresas. Neste caso, além das empresas, há ainda organizações da produção, que é algo que a maior parte dos laboratórios colaborativos não tem.
Este conjunto permite um trabalho de estreita articulação entre parceiros âncora, o sistema científico e tecnológico nacional – como a NOVA, a Universidade de Évora [UÉvora], o INIAV – e estas empresas, para identificar quais são os problemas mais importantes para o país e, quando se concebem as soluções, tentar casá-las com a comercialização à escala global. Este é um dos fatores críticos de sucesso mais relevantes para a sustentabilidade deste laboratório colaborativo.
A sustentabilidade do CoLAB vai passar muito pela capacidade de colocar isto no terreno. A equipa do laboratório tem de ser capaz de passar a interagir de forma muito próxima com os departamentos de ID&I [Investigação, Desenvolvimento & Inovação] da Bayer e da Syngenta, para, neste domínio dos biopesticidas e das moléculas de base biológica para pós-colheita e outro tipo de soluções que permitam reduzir o uso de fitofármacos, desenvolver as tais soluções complementares ao que esses departamentos de ID&I já estão a fazer. A um nível de TRL [Technology Readiness Levels] mais baixos, pré-competitivos, que depois possam evoluir já dentro das empresas para fases mais próximas do mercado.
Que outros fatores são críticos para o sucesso?
As estruturas do programa Interface têm três componentes de financiamento: o que é dado pelos apoios do Estado, muito para pagar recursos humanos; o desenvolvimento de ID&I à medida com empresas; e outra dimensão que são os projetos de investigação competitivos.
Os projetos de investigação competitivos que o CoLAB possa desenvolver para não estar a concorrer com os parceiros âncora deverão ser consórcios que os parceiros sozinhos tenham dificuldade em promover. Este é outro fator crítico de sucesso. Os laboratórios colaborativos de maior sucesso estão a conseguir fazê-lo e este também terá de conseguir, para ser sustentável. O facto de termos empresas e parceiros do sistema científico juntos, como este laboratório tem, permite ter uma ligação muito forte com as empresas e ter muita massa crítica.
Esta combinação é uma vantagem comparativa muito grande para concorrer, por exemplo, a projetos europeus, no âmbito do Horizonte 2020 e agora do Horizonte Europa. E também no âmbito de grandes projetos nacionais: programas mobilizadores, as agendas para a reindustrialização… Estes grandes consórcios são uma capacidade única que os laboratórios colaborativos podem ter e que ajuda a conferir sustentabilidade neste terceiro eixo da investigação competitiva.
Programas como o Plano de Recuperação e Resiliência…
O Plano de Recuperação e Resiliência, as agendas para a reindustrialização, que são pontuais… Mas do ponto de vista menos pontual, os projetos europeus no âmbito do Horizonte Europa vão ser uma oportunidade em que Portugal normalmente entra e em que os parceiros entram como parceiros ‘menores’; e os CoLAB, pela sua constituição, podem ter massa crítica para serem líderes de um consórcio europeu, ou para serem grandes parceiros num consórcio europeu.
É um fator diferenciador, onde os parceiros sozinhos têm dificuldades. A NOVA, a UÉvora, o INIAV, embora estejam em vários projetos europeus, têm mais dificuldade em liderar um projeto europeu, ou estar numa posição de força num projeto europeu, do que um CoLAB, pela grande massa crítica que pode ter e, sobretudo, pelo seu cariz mais empresarial.
Porque é que a equipa do CoLAB ainda não está a interagir de forma estreita com as empresas? O que falta?
Os laboratórios colaborativos permitem esse trabalho conjunto pré-competitivo de empresas, mas o foco é colocar produtos ou serviços no mercado, não é fazer investigação fundamental. E quem sabe aquilo que precisa de ser colocado no mercado são as empresas que vão fazê-lo. Esse trabalho entre os departamentos de ID&I das empresas e os CoLAB é muito importante porque, do lado da empresa, o interlocutor é muito importante; se for um interlocutor de uma área que não é da investigação, tem uma perceção e uma sensibilidade diferentes do que um interlocutor do departamento de I&I.
Há um caminho que já está a ser feito, mas há a necessidade de reforçar esta componente, eventualmente no posicionamento estratégico do CoLAB. Obviamente que, sendo empresas concorrentes, têm as suas reservas. Mas há TRL mais baixos, pré-competitivos, onde é possível ser muito mais eficiente trabalhando num modelo desta natureza.
E esse caminho…
Acho que este é um caminho que vai ter de ser feito; é incontornável para a sustentabilidade do CoLAB. Se o laboratório colaborativo fizer coisas que os parceiros já estão a fazer acaba por não ser sustentável e o volume de negócios é muito menor. Num desenvolvimento de investigação à medida para uma grande empresa, os montantes contratualizados são gigantes. Ou se falarmos de projetos do Horizonte Europa, os montantes são muito diferentes do que num projeto da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia] ou de um Programa Operacional regional.
Hoje o CoLAB está em fase de instalação mas, se pensarmos em daqui a cinco, dez anos, o objetivo é passar a ser autossustentável do ponto de vista económico-financeiro; ter capacidade de pagar a toda a equipa, de alargar a equipa, ter verbas para reinvestir…
A NOVA, a UÉvora, o INIAV, embora estejam em vários projetos europeus, têm mais dificuldade em liderar um projeto europeu, ou estar numa posição de força num projeto europeu, do que um CoLAB, pela grande massa crítica que pode ter e, sobretudo, pelo seu cariz mais empresarial.
Qual é o principal papel do INIAV no InPP?
O INIAV é a principal estrutura do país nesta área, uma vez que tem os laboratórios nacionais de referência para a proteção de plantas. Há uma rede europeia de laboratórios de referência, que são os laboratórios de primeira linha em cada área; a Comissão Europeia reconhece apenas um em cada estado-membro. Depois, trabalham em rede com os dos outros estados-membros, para garantir que a competência técnica, os equipamentos e sobretudo os resultados que saem de um laboratório destes em Portugal são exatamente iguais aos que saem na Alemanha, na Holanda ou noutro sítio qualquer.
O INIAV tem todos os laboratórios nacionais de referência para as doenças e pragas das plantas agrícolas e florestais. Também tem uma atividade muito relevante na investigação, quer seja na área mais laboratorial, quer seja usando ferramentas digitais para deteção mais precoce das doenças… E depois tem ainda mais duas áreas muito relevantes. Uma é o melhoramento genético, um dos fatores relevantes para Elvas; é a partir de Elvas que são coordenados todos os programas nacionais de melhoramento de plantas e a questão da resistência às doenças é um dos fatores. E depois a questão da susentabilidade: ter variedades de plantas que permitam o uso mais eficiente dos recursos e também exijam menos fitofármacos.
Sendo o INIAV a principal organização nacional a trabalhar nesta área, é muito importante para enquadrar o InPP no ecossistema e dar-lhe o spin certo, e ajudá-lo a ser de facto complementar àquilo que existe – é isso que torna o ecossistema mais forte, mais diverso, com maior capacidade de adaptação e, no fundo, com maior capacidade de resposta para os problemas que o país tem neste domínio. Problemas esses que estão muito relacionados com as alterações climáticas e a globalização. Estão a surgir cada vez mais doenças e pragas das plantas, existentes ou emergentes, em particular as doenças transmitidas por insetos, ou pragas causadas pelos próprios insetos.
Esta é uma área absolutamente central para a sustentabilidade das várias fileiras agrícolas do país. O INIAV pode ajudar neste enquadramento, nesta complementaridade e nesta integração do CoLAB no ecossistema e nas várias fileiras agrícolas com que o INIAV se relaciona.
Acha que o INIAV e o InPP têm conseguido colaborar bem?
Eu diria que é um processo de aprendizagem. Esta questão dos arranjos colaborativos é nova em Portugal. Eu estive pessoalmente envolvido na génese de todos os arranjos colaborativos, quer os laboratórios colaborativos, quer os centros de competência, nesta área. Em 2014, começámos a criar os primeiros centros de competência e agora, mais recentemente, os CoLAB. E quando se criaram os primeiros centros de competência, os investigadores e os interlocutores das empresas nem conseguiam falar a mesma língua.
Há um processo de aprendizagem conjunto, é um caminho que está a ser feito. E a boa vivência entre os vários parceiros do CoLAB, e a atividade e sustentabilidade do CoLAB passam muito pela capacidade precisamente de fazer coisas complementares às que os parceiros já fazem, explorando as complementaridades e sinergias.
O mainstream deste CoLAB é produzir moléculas de base biológica para proteção de plantas e pós-colheita, ou soluções que permitam reduzir drasticamente o uso de moléculas de síntese para estas áreas, que é algo que os parceiros individualmente não têm capacidade para fazer. Ainda há um caminho longo para fazer, que exige alguma aprendizagem, alguma reorganização de todos os envolvidos. Acredito que vamos lá chegar.
Que outros desafios se colocam ao InPP?
Os laboratórios colaborativos são estruturas de interface com as empresas, têm de estar orientados para o que possa ser colocado no mercado, em tempos que possam ser interessantes para as empresas.
Temos de assumir que existem limitações legais na Europa ao uso da genómica e, num contexto de inovação de grande proximidade com o mercado, tentar trabalhar nelas é perder adesão à realidade. Não é esse o posicionamento de um laboratório colaborativo. Eu não digo que uma universidade, que faz investigação fundamental, não continue a trabalhar nestas matérias, porque se calhar daqui a uns anos vão surgir soluções que certamente serão úteis. Mas, no caso concreto do CoLAB, acho que são limitações que podem demorar muito tempo a ser resolvidas e que, do ponto de vista da sustentabilidade, podem ser um passo que não é o mais adequado.
Em senso lato, a ideia de trabalhar no domínio da inovação num laboratório colaborativo é pegar em coisas que já estão mais maduras e transformá-las em soluções concretas, que possam ser colocadas no mercado no curto, médio prazo, mas que sejam desde logo apelativas para as empresas.
Qual será, na sua opinião, o impacto mais importante do InPP?
O InnovPlantProtect está a trabalhar numa área muito relevante para a sustentabilidade e portanto pode ter aí um grande impacto. O grande impacto vai ser quando o CoLAB conseguir pôr no mercado moléculas ou soluções de base biológica para a proteção de plantas e pós-colheita, que resolvam estes problemas graves que temos e que nos interessam muitíssimo neste caminho para termos uma produção de alimentos mais sustentável, mas que possam ser comercializadas à escala global. Somos um país pequeno; não é possível colocar uma nova molécula no mercado para ser vendida só em Portugal.
A área central de atividade deste CoLAB é fundamental para o país e para a Europa, não só atualmente, mas do ponto de vista prospetivo, uma vez que se prevê que cada vez existam mais problemas relacionados com a proteção das plantas e mais dificuldade em usar fitofármacos de síntese. Está também muito enquadrada nos dois grandes eixos da Europa para os próximos dez anos – uma Europa mais verde e uma Europa mais digital – e nos grandes objetivos do Green Deal e do Farm to Fork. O que é mais uma razão de motivação e garantia de que o laboratório tem pernas para andar.
Entrevista publicada em primeira mão pela Vida Rural, edição janeiro 2022.
Investigadoras do InPP assinalam o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência 2022 unindo-se no rio Guadiana e alertando: água é vida e milhares de milhões de pessoas nos países pobres ainda não têm acesso a água potável e saneamento.
“Neste ano, o tema do Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência (IDWGS, na sigla inglesa) é ‘Water Unites Us’. Neste dia, queremos dar voz a quem não a tem. Alertamo-vos para a falta de condições referentes à água nos países pobres. Em 2030, milhares de milhões de pessoas não terão acesso a condições sanitárias. Juntas, sejamos um agente de mudança!”, declaram as investigadoras do InnovPlantProtect (InPP), acrescentando: “Devíamos preocupar-nos com a água independentemente de ser um ano seco ou húmido. A água tem sido sinónimo de vida para este planeta desde a primeira hora. É por isto que a água nos une.”
O IDWGS é celebrado anualmente em todo o mundo a 11 de fevereiro. As investigadoras do InPP captaram esta fotografia à hora de almoço, a 10 de fevereiro de 2022, junto ao rio Guadiana, um dos maiores que atravessa Portugal. O InPP é uma associação privada sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de soluções bio-inspiradas para a proteção de culturas contra pragas e doenças. Tem sede em Elvas, uma cidade pequena no Interior de Portugal, muito próxima do rio Guadiana e da fronteira com Espanha.
O tema do IDWGS 2022 é “Equidade, Diversidade e Inclusão: A Água Une-nos”, em reconhecimento “do papel das mulheres e raparigas na ciência, não só como beneficiárias, mas também como agentes de mudança, incluindo com vista a acelerar o progresso na conquista do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (Água Potável e Saneamento)”. De acordo com a organização, “o 11 de fevereiro é celebrado globalmente de formas diferentes, grandes e pequenas”. Esperamos que a nossa humilde ação contribua para as vozes coletivas sobre a Igualdade em Ciência!
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