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O diretor executivo do InnovPlantProtect (InPP), António Saraiva, participou na conferência “Que desafios se colocam ao setor agroflorestal nacional para a próxima década?”, que decorreu na Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC) do Instituto Politécnico de Coimbra, na passada terça-feira, 22 de abril.

No evento, que reuniu mais de 150 participantes e foi organizado por 17 Centros de Competências nacionais, foram debatidos temas como inovação, sustentabilidade, conservação do solo, monitorização do montado e gestão eficiente da agropecuária.

António Saraiva integrou o painel de comentadores, que teve como orador Pedro Santos, Diretor-geral da CONSULAI, e moderação de Maria Custódia Correia, Coordenadora da Rede AKIS Portugal. A sessão de abertura contou com a presença do Ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, que anunciou a publicação da Portaria de 21 de abril para abertura da Bolsa de Iniciativas para a constituição de Grupos Operacionais (GO).

Esta iniciativa disponibiliza um total de 11 milhões de euros para os novos GO, com um máximo de 350 mil euros por projeto e financiamento elegível de 100%.

Os GO são considerados estruturas cruciais para a transferência de conhecimento e o fortalecimento do AKIS (Sistema de Conhecimento e Inovação na Agricultura).

Um agradecimento especial aos 17 Centros de Competências pela oportunidade de participar neste encontro produtivo!

Créditos de imagens: Rede Rural Nacional

Beyond strategy: The secret ingredient of innovation

On the path to success, organizations define strategies, plan each step, and invest in crucial resources such as the sale of services and products, project applications, the development of solid business plans, and the protection of intellectual property. However, there is an often-neglected element that is fundamental to the flourishing of innovation: serendipity. But what exactly is this mysterious force, and why is it so vital to advancing agriculture and so many other areas?

When chance opens doors: The power of unplanned discovery

Serendipity lies in the art of finding something valuable when looking for something else. It’s the unintentional discoveries that arise from unexpected situations. Throughout history, some of the most transformative innovations have not been the result of a rigorous plan, but rather of a fortuitous encounter with the unknown. Although deliberate research and methodical experimentation are pillars of scientific and technological progress, openness to the unexpected proves to be a powerful catalyst. When researchers cultivate this openness, they often come across revelations that have the potential to revolutionize entire industries, transform technologies, and expand our understanding of the world around us.

A close look at the “error”: The genesis of an innovative biofungicide

Today, we unveil the surprising and inspiring story of Maria Miguel, a talented researcher from the InPP’s New Biopesticides Department, whose insight transformed a fortuitous event into a discovery of inestimable value: a broad-spectrum biofungicide capable of combating Botrytis cinerea, the relentless fungus responsible for the devastating gray mold disease in tomato plants. This pathology represents one of the greatest phytosanitary challenges in tomato cultivation, especially when grown in greenhouses, causing significant losses to producers if not controlled in a timely manner.

From discard to discovery: An investigator’s insight

The journey of this discovery began in a scenario familiar to any researcher: the observation of Petri dishes, used to grow cell or microorganism cultures. In Maria Miguel’s Petri dishes, colonies of the fungus Botrytis cinerea were growing, intentionally introduced there for study. However, something else caught her attention: one of the plates was contaminated by mold, and curiously, a clear zone surrounded this intruder. Instead of discarding the plate and ignoring it as mere contamination, Maria Miguel decided to investigate the reason behind that clear area. Her curiosity revealed that the mold had a surprising ability to inhibit the growth of Botrytis cinerea in its vicinity.

“Sometimes we look at something and think it’s a mistake. The truth is that within a failure, there can be something good,” shares the researcher. The emotion and enthusiasm of a researcher when realizing that what at first seemed like an obstacle, a negative result, can actually be an opportunity, is contagious. For Maria Miguel, this “error” transformed into a serendipitous discovery with enormous potential.

Maria Miguel, a researcher at the InPP’s Department of New Biopesticides, transformed an unexpected event into a groundbreaking discovery: a broad-spectrum biofungicide to combat gray mold in tomato plants.

Beyond chance: The active ingredients of scientific discovery

As the story of this biofungicide demonstrates, the world of science is full of examples of discoveries that arose from the unexpected. One of the most famous cases is the discovery of penicillin by Alexander Fleming in 1928. While observing Petri dishes, Fleming noticed that a mold was producing a substance that eliminated Staphylococcus aureus bacteria around it. He identified the mold as Penicillium notatum and named his revolutionary antibiotic penicillin. Penicillin ended up becoming an extremely important drug for fighting infections.

However, chance is not the only protagonist of these important revelations. “Sometimes we have to follow our intuition and be able to prove that we are right or wrong,” explains Maria Miguel. In addition to intuition, a generous dose of curiosity, an open mind to accept unexpected results, a solid scientific knowledge, and the ability to see and advance to further investigations on surprising results play a crucial role in the alchemy of discovery.

The ecosystem of discovery: Fostering an environment conducive to innovation

There are other ingredients that contribute to the recipe for scientific success:

  • Creativity: The ability to generate new perspectives, concepts, questions, or solutions, and the willingness to explore existing ideas under a new light.
  • Flexibility: The courage to venture into unknown territories without fear of failure, thus increasing the odds of serendipitous encounters.

But no discovery flourishes in isolation. At InPP, the strong team spirit and culture of collaboration transcend departmental boundaries. Maria Miguel’s discovery is a testament to this synergy, as she herself acknowledges: “My colleagues opened doors so that I could do my research.”

To foster innovation, organizations need to cultivate an environment that stimulates open discussions and connects people from diverse areas of knowledge and life experiences, without judgment; that encourages curiosity and receptiveness to new experiences; and that promotes a relentless pursuit of improving scientific knowledge, the fertile ground where serendipity can germinate.

Sowing the future: The impact of a discovery and the path of research

Although Maria Miguel is about to embark on a new journey, driven by a prestigious Marie Skłodowska-Curie doctoral fellowship – a program that supports the career of researchers and promotes excellence and innovation in research – her legacy at InPP is already flourishing. Her innovative discovery is opening new and promising doors for future research in the area of crop protection, demonstrating how, at times, it is in the unexpected that the potential to transform our world lies.

Para além da estratégia: O ingrediente secreto da inovação

No caminho para o sucesso, as organizações definem estratégias, planeiam cada passo e investem em recursos cruciais como a venda de serviços e produtos, a candidatura a projetos, a elaboração de planos de negócios sólidos e a proteção da propriedade intelectual. No entanto, há um elemento muitas vezes negligenciado, mas fundamental para o florescimento da inovação: a serendipidade. Mas o que é exatamente esta força misteriosa e por que razão é tão vital para o avanço da agricultura e de tantas outras áreas?

Quando o acaso abre portas: O poder da descoberta não planeada

A serendipidade reside na arte de encontrar algo valioso quando se procura outra coisa. São as descobertas não intencionais que surgem de situações inesperadas. Ao longo da história, algumas das inovações mais transformadoras não foram fruto de um plano rigoroso, mas sim de um encontro fortuito com o desconhecido. Embora a investigação deliberada e a experimentação metódica sejam pilares do progresso científico e tecnológico, a abertura ao inesperado revela-se um catalisador poderoso. Quando os investigadores cultivam esta abertura, muitas vezes deparam-se com/tropeçam em revelações que têm o potencial de revolucionar indústrias inteiras, transformar tecnologias e expandir a nossa compreensão do mundo que nos rodeia.

Um olhar atento ao “erro”: A génese de um biofungicida inovador

Hoje, desvendamos a surpreendente e inspiradora história de Maria Miguel, uma investigadora talentosa do Departamento de Novos Biopesticidas do InPP, cuja perspicácia transformou um acontecimento fortuito numa descoberta de valor inestimável: um biofungicida de largo espectro capaz de combater o Botrytis cinerea, o fungo implacável responsável pela devastadora doença da podridão cinzenta nos tomateiros. Esta patologia representa um dos maiores desafios fitossanitários na cultura do tomate, especialmente quando cultivada em estufa, causando prejuízos significativos aos produtores se não for controlada atempadamente.

Do descarte à descoberta: A perspicácia de uma investigadora

A jornada desta descoberta começou num cenário familiar para qualquer investigador: a observação de placas de Petri, usados para cultivar culturas de células ou microrganismos. Nas placas de Maria Miguel, colónias do fungo Botrytis cinerea cresciam, ali introduzidas intencionalmente para estudo. Contudo, algo mais chamou a sua atenção: uma das placas estava contaminada por um bolor, e curiosamente, uma zona límpida rodeava este intruso. Em vez de descartar a placa e ignorar como uma mera contaminação, Maria Miguel decidiu investigar a razão por detrás daquela área clara. A sua curiosidade revelou que o bolor possuía uma capacidade surpreendente de impedir o crescimento do Botrytis cinerea nas suas proximidades.

“Às vezes olhamos para algo e pensamos que é um erro. A verdade é que num falhanço pode haver algo bom”, partilha a investigadora. A emoção e o entusiasmo de um investigador ao perceber que aquilo que à primeira vista parecia um obstáculo, um resultado negativo, pode, na verdade, ser uma oportunidade, é contagiante. Para Maria Miguel, este “erro” transformou-se numa descoberta serendipitosa com um potencial enorme.

Maria Miguel, investigadora do Departamento de Novos Biopesticidas do InPP, que transformou um acontecimento inesperado numa descoberta que mudou o rumo do seu trabalho: um biofungicida de largo espectro para combater a podridão cinzenta nos tomateiros.

Para além do acaso: Os ingredientes ativos da descoberta científica

Tal como a história deste biofungicida demonstra, o mundo da ciência está repleto de exemplos de descobertas que surgiram do inesperado. Um dos casos mais célebres é a descoberta da penicilina por Alexander Fleming em 1928. Ao observar placas de Petri, Fleming notou que um bolor estava a produzir uma substância que eliminava as bactérias Staphylococcus aureus ao seu redor. Identificou o bolor como Penicillium notatum e batizou o seu revolucionário antibiótico de penicilina. A penicilina acabou por se tornar um medicamento extremamente importante para combater infeções.

No entanto, o acaso não é o único protagonista destas revelações importantes. “Às vezes temos de seguir a nossa intuição e sermos capazes de provar que estamos certos ou errados”, elucida Maria Miguel. Para além da intuição, uma dose generosa de curiosidade, a mente aberta para aceitar resultados inesperados, um conhecimento científico sólido e a capacidade de ver e avançar para investigações adicionais sobre resultados surpreendentes desempenham um papel crucial na alquimia da descoberta.

O ecossistema da descoberta: Fomentando um ambiente propício à inovação

Existem outros ingredientes que contribuem para a receita do sucesso científico:

  • Criatividade: A capacidade de gerar novas perspetivas, conceitos, questões ou soluções, e a vontade de explorar ideias já existentes sob uma nova luz.
  • Flexibilidade: A coragem para aventurar-se em territórios desconhecidos sem o receio do fracasso, aumentando assim as probabilidades de encontros serendipitosos.

Mas nenhuma descoberta floresce isoladamente. No InPP, o forte espírito de equipa e a cultura de colaboração transcendem os limites departamentais. O caso da descoberta de Maria Miguel é um testemunho desta sinergia, como ela própria reconhece: “Os meus colegas abriram portas para que eu pudesse fazer a minha investigação”.

Para fomentar a inovação, as organizações precisam de cultivar um ambiente que estimule discussões abertas e conecte pessoas de diversas áreas de conhecimento e experiências de vida, sem julgamentos; que encoraje a curiosidade e a recetividade a novas experiências; e que promova uma busca incessante por melhorar o conhecimento científico, o terreno fértil onde a serendipidade pode germinar.

Semear o futuro: O impacto de uma descoberta e o caminho da investigação

Embora Maria Miguel esteja prestes a embarcar numa nova jornada, impulsionada por uma prestigiada bolsa de doutoramento Marie Skłodowska-Curie – um programa que apoia a carreira de investigadores e promove a excelência e a inovação na investigação – o seu legado no InPP já está a florescer. A sua descoberta inovadora está a abrir novas e promissoras portas para futuras investigações na área da proteção de culturas, demonstrando como, por vezes, é no inesperado que reside o potencial para transformar o nosso mundo.

EVENTOS

Há pelo menos dois anos que o CoLAB InnovPlantProtect tem pronta uma estratégia para desenvolver uma solução biológica contra a Xylella fastidiosa. No entanto, até hoje, não foi possível encontrar fundos públicos ou privados para materializar este projeto.

Parece contudo inevitável a necessidade do seu desenvolvimento, uma vez que esta bactéria patogénica, que produz uma doença que mata oliveiras, amendoeiras e vinhas, entre dezenas de outras plantas, está já presente em três zonas de Portugal (Porto, Queluz e Algarve) e os seus vetores existem em todo o território.

Quando irá o país perceber que tem de investir já – na realidade, devia tê-lo feito há dois anos – para que esta doença extremamente agressiva não se espalhe pelos olivais e amendoais portugueses? Porque é que não se faz investimento na prevenção, em vez de esperar pelo desastre e deitar então as mãos à cabeça?


Pedro Fevereiro, CEO do InnovPlantProtect, Professor Catedrático Convidado, ITQB NOVA

Fotografia do principal inseto vetor da Xylella fastidiosa e micrografia da bactéria

Para a reitora da Universidade de Évora, instituição associada do InnovPlantProtect, a participação no CoLAB de Elvas era “imprescindível” e um passo que a instituição tinha de dar. Ana Costa Freitas, que vai de bicicleta para o trabalho e recebe alunos no gabinete, considera os laboratórios colaborativos instrumentais para fazer reviver o Interior com emprego qualificado. Quanto à biotecnologia de plantas, é perentória: não é possível alimentar toda a população sem a genómica.

Veja o vídeo no nosso canal no YouTube

Texto: Eva Ceia/ InnovPlantProtect
Fotografia: Joaquim Miranda

Ana Costa Freitas, reitora da Universidade de Évora, fotografada por Joaquim Miranda.

Porque é que a Universidade de Évora (UÉ) se fez associada do laboratório colaborativo InnovPlantProtect (InPP)?

A Universidade de Évora não estava no consórcio inicial. Quando soube que havia o consórcio, falei com o reitor da Universidade NOVA e disse-lhe que estávamos interessados em fazer parte do Laboratório. Disse, aliás, ‘nós temos de entrar’. Eu acho que estes laboratórios colaborativos são o passo seguinte da estratégia e das políticas públicas de ciência. São um passo à frente daquilo que tivemos anteriormente: começámos pelos centros de investigação, depois os laboratórios associados e agora os CoLAB, que têm as empresas envolvidas no processo.

Considero aliás que os CoLAB são uma ideia interessante e vanguardista, e o facto de estarem dispersos no território é fundamental, até porque não reconheço no Governo muitas políticas para o Interior. Ainda assim, reconheço no Ministério da Ciência [Tecnologia e Ensino Superior] mais políticas para o Interior. Em suma, é fundamental termos nestes locais capacidade de emprego, e de emprego qualificado. E depois porque a Universidade de Évora tem na sua génese uma forte influência das áreas da agricultura e da biologia; tivemos uma grande ligação com a Estação [de Melhoramento de Plantas] em Elvas. [O InPP tem sede no INIAV Elvas, também associado do CoLAB].

A UÉ já estava na génese, ou já era associada, de outros CoLAB. O que é que o InPP acrescenta à Universidade?

Não éramos [associados] de nenhum nesta área. E esta área é importantíssima para a Universidade de Évora, para a região e para o país. É uma área fulcral no nosso funcionamento porque faz parte de nós. Por exemplo, o nosso maior centro de investigação é o MED [Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento]. É uma área, como todas as áreas da ciência, que deve ser cada vez mais transversal, o que implica muitos investigadores. É uma área da qual não podíamos ficar de fora. Era necessário dar este passo.

Fala da biotecnologia de plantas, da proteção de culturas…

As duas – a proteção de culturas e a biotecnologia de plantas –, visto que, mais do que o laboratório em si, é todo um processo. Há o solo, as plantas, a proteção da planta, (…) Apesar do laboratório estar mais focado na proteção de culturas mediterrânicas.

Para nós e no imediato, o Mediterrâneo é uma área de eleição; depois, a parte da sustentabilidade deste ecossistema é muito importante. A tudo isto liga-se a necessidade que temos de reduzir a o uso intensivo dos recursos. Esse “bocadinho” que está no InPP está em toda a fileira na qual a Universidade de Évora tem muito interesse, muito impacto e muito trabalho desenvolvido. Por isso repito, era imprescindível que estivéssemos [no CoLAB].

Concretamente, neste momento, em que consiste o papel da UÉvora neste projeto?

Temos uma investigadora que está especificamente ligada ao CoLAB, que é a Maria Rosário Félix, quejá tinha trabalhado várias vezes com o Pedro Fevereiro [diretor executivo do InPP]. Sei que têm vários projetos em colaboração; um deles é uma vacina para proteger plantas, mais particularmente as oliveiras da Xylella fastidiosa (uma bactéria da classe das Gammaproteobacterias). A Rosário tem feito um trabalho muito bom e era importante alargar a sua rede de contactos. As Universidades ditas pequenas têm grupos de investigação geralmente mais pequenos; e que, obviamente, temos de alargar, para consolidá-los ainda mais.

Universidade pequena?…

Para o contexto das universidades portuguesas… Geralmente, as universidades localizadas no Litoral têm acima de vinte mil alunos, enquanto as universidades localizadas no Interior têm cerca de oito a nove mil. Nos últimos anos, registámos um aumento do número de alunos e isso é bastante positivo. No que respeita a mestrados e doutoramentos, são mais difíceis de captar, mas a Universidade de Évora tem conseguido resultados muitos positivos; por exemplo, temos mais ou menos a mesma percentagem que a Universidade de Lisboa.

Agora, temos imensas vantagens. Tem vantagens para os alunos porque têm uma ligação muito mais forte com os docentes, muito maior proximidade… Recebo e-mails de alunos, recebo alunos aqui no meu gabinete; não é vulgar os reitores fazerem isto nas universidades ditas grandes. Temos muitos bons grupos de investigação, temos muitos centros classificados com “excelente e “muito bom”, mas formar um grupo de investigação e crescer torna-se mais difícil. Porque há menos gente aqui, portanto, as pessoas têm de se deslocar; depois têm de arranjar casa, fixar-se no território… E na investigação, o emprego ainda não é um emprego fixo. Atualmente temos cem investigadores mas, com contrato permanente, não temos muitos. A maior parte têm contrato a seis anos, renovável, obviamente, continuam nos seus projetos…

Por outro lado, o facto de os grupos serem mais pequenos é mais exigente. Em Portugal, nos últimos dez, vinte anos é que começamos a reconhecer a importância das redes de investigação. Nós tínhamos em Portugal, infelizmente – isto é uma opinião particular –, demasiadas “quintinhas de investigação” e competindo muito uns com os outros. Hoje, essa questão está mais atenuada. O alargar destas redes de investigação é muito importante porque um grupo pequeno dificilmente se afirma internacionalmente. A Universidade é pequena em número, não é pequena em qualidade.

No caso do InPP, como vê a participação das empresas? Acha que a estratégia seguida permite o desenvolvimento de uma atividade em conjunto?

Espero que sim. Nós estamos envolvidos noutros CoLAB, no Laboratório Colaborativo em Transformação Digital (DTx), com sede no Minho, que têm tido projetos com algumas empresas e têm empresas na sua constituição, que é obrigatório. Do InPP, tenho tido um pouco mais de feedback, nomeadamente até mesmo da autarquia. Estamos no princípio. Há vários aspetos que considero importantes: o corpo de investigadores que já têm, o fixar dessas pessoas em Elvas e a ligação às empresas – eu acho que é fundamental e tem sido bem-sucedido. Por outro lado, o InPP teve um aspeto difícil, que foi não ter instalações. As obras estão para acabar em breve, o que vai ser um passo importante.

Nós temos a Fertiprado e duas grandes empresas, a Syngenta Crop Protection e a Bayer CropScience. Acha possível empresas e laboratório colaborarem efetivamente?

Eu acho que sim. A base dos laboratórios colaborativos é darem resposta a problemas colocados pelas empresas e acho muito interessante o modelo de ter grandes e pequenas empresas envolvidas no Laboratório.

Neste momento temos um projeto com a Fertiprado, para uma solução específica, de identificação e combate a um agente patogénico que ataca o trevo-da-pérsia…

Creio que as grandes empresas irão procurar uma prestação de serviço, ‘nós precisamos disto’, e a Fertiprado quer desenvolver soluções. As pequenas empresas em Portugal precisam de se ‘habituar’ a que a investigação é essencial para o modelo de negócio que estão a desenvolver. Isso a meu ver é o que falta. Se não fosse assim, teríamos mais emprego de doutorados nas empresas. Ainda não há o reconhecimento da necessidade de apostarem na investigação. Por isso é ótimo que essa transformação esteja a acontecer, quer dizer que estamos a conseguir fazer aquilo que eu acho que os CoLAB têm como fim.

Tendo em conta que uma Syngenta ou uma Bayer já têm os seus próprios departamentos de I&D montados, o que é que o CoLAB pode oferecer-lhes?

Um laboratório de investigação pode sempre oferecer uma base que é o conhecimento. Infelizmente, o conhecimento não é muito valorizado no nosso país. As pessoas só valorizam o conhecimento quando o transformam num retorno financeiro. E o conhecimento é muito mais do que isso. As grandes empresas, quando necessitarem, sabem que têm uma base de conhecimento, que é sempre importante. Nem que seja para discutir problemas. É fazerem uso do conhecimento. E isso para eles, para essas empresas, é importante.

Esta área, da biotecnologia e das novas técnicas genómicas (NTG) aplicadas à proteção de culturas, é problemática em termos de regulamentação. No final de abril, a Comissão Europeia reconheceu que a legislação aprovada em 2001 para os organismos geneticamente modificados (OGM) não serve e prometeu abrir um diálogo alargado. Como vê este futuro…

O problema da União Europeia [UE] é que são 27 países que têm todos de se pôr em acordo. Nós queixamo-nos muito do tempo que demoram as decisões da UE, mas não há mais ninguém no mundo que tenha que ter os acordos aprovados por 27 chefes de Estado e de Governo. ­Essa discussão vai ser feita, mas é complicada. Poderemos, para acelerar, pegar na discussão ao contrário; ou seja, não é possível eventualmente alimentar toda a população se não usarmos a genómica. Temos de ver pelo lado mais positivo. Agora, vai demorar tempo.

Mas também acho que é um bom passo. É um passo que era inevitável. O contrário é que era estranho. É ciência. É evidência científica, ponto. A dificuldade de termos políticas públicas, sejam elas quais forem, baseadas em evidência científica… se fosse assim, éramos todos mais felizes. Eu acho que éramos, porque a ciência é a única coisa que pode promover um desenvolvimento sustentável, é a base científica das coisas. E nós estamos a ver “assassinatos” à sustentabilidade diariamente. E depois temos estes casos, que são uma venda à frente dos olhos. É não querer ver para além disto. E não conseguir interpretar o problema pelo lado científico; nem querer, que é pior ainda. Porque politicamente pode ser incorreto.

Acha que o InPP vai conseguir vencer este desafio?

Acho que sim. É tudo uma questão de informação e de comunicação. É um bocado um modelo de comunicação. Não é nada que não se faça. Para já, a sigla OGM não pode ser usada, ponto. A partir daí, praticamente tudo é permitido.

Acha que há um grande trabalho a fazer em termos de comunicação científica? No sentido de explicar que as NTG não são o que tínhamos há 20 anos?

Se nós explicarmos o proveito que as coisas têm… É preciso um trabalho de comunicação muito forte, que é fundamental, porque é o futuro. Não pode ser de outra maneira. A comunicação de ciência tem mais desafios porque não se pode comunicar ciência com palavras científicas. Temos de ter um modelo de discurso que chegue às pessoas. Eu tenho assistido quase que extasiada a todo o problema da Covid-19. Só o facto de o primeiro-ministro dizer que fala com os cientistas e nenhum lhe diz exatamente se deve desconfinar ou não… Não lhe pode dizer exatamente! Mesmo que pudesse, essa será sempre uma decisão política. Ele pode ouvir quem quiser e no fim tem de decidir, tendo absorvido o máximo de conhecimento possível.

Qual acha que será o impacto mais importante do InPP?

Bom, os resultados da investigação de certeza que têm impacto, mas têm impacto a longo prazo. Para mim, o importante é fazer reviver estas cidades. O facto de já terem 38 pessoas que vivem lá, que têm uma maneira de pensar diferente, que não estão acabrunhadas pela solidão… e Elvas é um caso até particular, porque tem a cidade de Badajoz ao lado… Eu acho que vai ser muito importante fazer reviver estes territórios. Os territórios do Interior do Alentejo são um terço do país, ao qual o país não liga. Não têm gente. Évora tem cerca de 50.000 habitantes, e Évora é a mais populosa – elege três deputados, Portalegre dois, Beja outros três; e a tendência é diminuir. Não têm impacto nenhum nos resultados eleitorais. Considero que a lei eleitoral devia de ser alterada.

As políticas públicas, mal, são a curto prazo. E o retorno em termos eleitorais, aqui, é muito pequeno. Eu acho lindamente a rede de Metro em Lisboa mas não há transportes no Alentejo. É mais “barato” para um aluno que viva em Estremoz ir estudar para Lisboa, do que vir de Estremoz para Évora. E quem diz Estremoz, que está a 46 km, diz Viana do Alentejo, que está a cerca de 30 km. Nós não temos verdadeiramente uma rede de transportes. Devia-se investir nessa área mas não é rentável, há pouca gente…

Por isso acho que esse é o grande impacto do inPP: mais pessoas a dizer que se pode viver, e bem, no Alentejo, e o Alentejo ter para oferecer condições, que tem, importantíssimas, de qualidade de vida. Para lhe dar um exemplo, venho sempre de bicicleta para a Universidade. Nós temos boas condições de vida, é preciso é que o território seja capaz de oferecer às pessoas empregos, habitação… porque se não tivermos empregos e habitação para as pessoas qualificadas, elas não vêm.

O InnovPlantProtect é um projeto que considero estruturante para a região e para o país

Ana Costa Freitas

O InPP é o único CoLAB dedicado à biotecnologia para a proteção de culturas. Que outros desafios tem pela frente?

O único desafio realmente importante é o êxito. Tem que ter êxito. Para conseguirmos que funcione bem é preciso garantirmos que vão ter êxito; o que depende de nós até certa medida.

E a fórmula para o êxito?

É preciso que o retorno para as empresas seja importante e que as pessoas realmente se possam fixar. É importante garantir que as pessoas gostam do que estão a fazer, estão a fazer algo que consideram útil e que se querem manter. Um bom investigador tem paixão pelo que faz, “gosta mesmo daquilo” e tem uma curiosidade inata. Veja por exemplo o êxito que os Laboratórios de Estado tiveram no princípio e depois estagnaram, porque deixaram de ter investimento.

É preciso nunca esquecermos isto: o modelo da investigação em ciência em Portugal – e esse é um modelo que vai ligar às empresas e, portanto, tem-se esperança que as empresas comecem a investir também – é competitivo: o Estado não financia convenientemente a investigação e por esse motivo temos de garantir verbas para investigação. Não considero que seja absolutamente um mau modelo, mas é competitivo. É preciso que as pessoas mantenham o entusiasmo para conseguirem estar sempre a candidatar-se a projetos. Este é um dos grandes desafios.

Como reage à atribuição do Prémio Vida Rural “Investimento que Marca” 2021 ao InPP?

O facto de este CoLAB ser considerado “o investimento mais relevante no último ano no setor agrícola e agroindustrial nacional” reforça a sua real importância a nível nacional. O InnovPlantProtect é um projeto que considero estruturante para a região e para o país, pois é fundamental em termos de investigação, de capacidade de emprego, e de emprego qualificado numa atividade crucial para a nossa economia como é o caso da agricultura, e numa região em que a urgência da criação de emprego qualificado é estruturante. Este prémio é, consequentemente, muito merecido, mas é também desafiante. Criaram-se expectativas muito elevadas que temos a obrigação de cumprir para corresponder ao desafio que abraçámos e que só pode ser ganhador.

Entrevista publicada em primeira mão pela Vida Rural, edição agosto 2021.

Atualizado em 4/11/2021

Inteligência artificial ao serviço da previsão e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em ecossistemas de sobreiro e azinheira merece apoio da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI, e da FCT.

O projeto “IA aplicada a um sistema de alerta e deteção precoce de Phytophthora cinnamomi em montado/ dehesa”, liderado pelo InnovPlantProtect (InPP), é um dos vencedores da 3ª edição do Programa Promove, na categoria de projetos-piloto inovadores. No total, mais de 2,5 milhões de euros serão destinados pela Fundação ”la Caixa”, BPI e Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), no âmbito deste programa, para o desenvolvimento das regiões do interior de Portugal.

Resultado de uma colaboração entre Portugal e Espanha, o projeto liderado pelo InPP, laboratório colaborativo (CoLAB) com sede em Elvas, visa desenvolver e testar, em ambos os países, um sistema de alerta e deteção precoce (Early Detection Warning System, ou EDWS, na sigla inglesa) para controlar a dispersão da doença do declínio do montado, que afeta estes ecossistemas de forma irreversível.

A doença é causada por um organismo fúngico (um oomiceto) chamado Phytophthora cinnamomi e assume um caráter preocupante dada a importância do montado/ dehesa nas economias local e global tanto portuguesas como espanholas. O montado/ dehesa fornece serviços como a produção de cortiça e lenha, alimento para espécies animais (porco preto e gado), sequestro de carbono, redução da erosão do solo, e habitat para espécies raras e endémicas, além de constituir um espaço recreativo.

Com recurso à inteligência artificial, entre outras tecnologias, o sistema proposto permitirá desenvolver mapas preditivos da dispersão espacial do agente patogénico e produzir as devidas recomendações/ ações em caso de surto da doença. O projeto pretende também envolver ativamente todos aqueles que dependem economicamente do estado de conservação do montado/ dehesa, nomeadamente através da criação de um serviço de webGIS (sistema de informação geográfica online) gratuito e de fácil acesso.